Blog de Jornalismo Especializado, Universidade Lusófona Porto

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Jun 10


«Na televisão somos todos um produto…» quem o disse foi o jornalista Lowell Bergman (Al Pa  cino) no filme The Insider, do realizador Michael Man. Um filme que coincidiu com algumas ideias que o entertainer Álvaro Costa nos deixou a fervilhar na nossa mente, na última aula.

 

Após esta afirmação veio à tona do meu pensamento uma verdade, que existe mas que por vezes não a vemos. Veremos as coisas por partes. A nossa concepção imediata da palavra produto ou melhor a minha concepção é de uma embalagem que desliza por uma passadeira rolante, com um rótulo estampado a dizer indirectamente, com letras mirabolantes, “comprem-me”. Até ir parar à prateleira, onde apela aos interesses de quem por lá passa. O dicionário da Língua Portuguesa diz que produto é tudo o que resulta do acto de produção; é lucro, rendimento, resultado. E agora coloco a seguinte questão: nós deslizamos numa passadeira rolante, andamos com um rótulo na testa, queremos ser vendidos? Somos um produto?

 

 

Na televisão, o aparelho que está a deixar de ser a mítica caixinha para se metamorfosear em painel mágico, desliza-se na passadeira da fama, os seus conteúdos são etiquetas de produto. Assim produto não é só a Coca-Cola, o telemóvel, o detergente ou o iogurte. São também o pançudo do pai natal que segura na Coca-Cola, são os reis magos aos saltos a palrear só para a promoção do telemóvel; são os putos que sujam a roupa de propósito para dar conhecer o milagroso detergente e é ainda a rapariga que fecha os olhos com uma colher de iogurte na boca.

 

O indivíduo neste caso é o que está a promover, e é também p que tira proveito (se não o for ridículo, é subjectivo mas óbvio) pois dá-se a conhecer através da publicidade. Essa mesmo, que todos criticam mas que todos a procuram para propagar. Neste caso na Tv. somos um produto que serve a publicidade e que a usa para publicitar outros produtos.

 

A televisão é hoje um mercado onde existe a publicidade e o produto, a compra, a venda e o lucro. Aqui o produto é informação, quando me refiro a informação estou a colocar no mesmo saco imagem, som, texto, etc. E a informação é produto das funções do jornalista. Um produto pressupõe uma compra e venda que por sua vez requer um lucro. Assim um programa de Tv. pressupõe “comprar” a atenção dos telespectadores, em troca de entretenimento, para lucrar com as audiências. Desta forma as audiências levam os canais a entrar numa corrida onde concorrentes competem por uma meta sem um fim definitivo à vista, procurando apenas num dia de cada vez chegar ao topo.

 

Não há dúvida que o capitalismo se derrama por todo o lado, nos engole numa golada só, numa corrida desenfreada em função de valores monetários. Será que os media existem para produzir informação ou para ser apenas um mercado económico? «Na Tv somos todos um produto» onde o jornalista é produto de um mercado económico, que vende e compra informação a outros jornalistas e cidadãos. E tal como todo o produto visa satisfazer as necessidades do seu público, ou seja, as audiências. Por sua vez a informação é o produto, que embalado, compactado, e rotulado é transportado até à sua casa por uma passadeira rolante virtual ou de papel, a cores ou a preto e branco.

 

Afinal de contas o que é que hoje não se vende, e não se compra?

Os valores morais oferecem-se, apesar de haver quem os compre, mas isso já é assunto para outra altura.

 

 

Susana Correia

publicado por sucorreia às 09:02

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