Blog de Jornalismo Especializado, Universidade Lusófona Porto

18
Jun 10

 

 

 

 

 

 

 

“A damn fine reporting”   por Joana Freitas

 

 

Assemelhando-se ao caso de Watergate, State of Play deixa bem vincados casos de corrupção política que se tornam uma história a ser desvendada. Realçando a importância do jornalista, e do seu tradicional papel de defesa da sociedade e de exposição da mentira, o filme destaca um dos mais nobres géneros jornalísticos: a reportagem de investigação.

O jornalismo de investigação narra uma história. Uma história verdadeira que incide sobre um acontecimento, esclarece-o e dá vida a informação em bruto. Tomando partido do desejo do leitor em saber o mundo em que vive, o jornalista parte para o trabalho de campo, correndo atrás de factos, cruzando-os, montando-os e construindo uma história por entre princípios e técnicas:

 

“Coffes free for the friends of press”

 

Mais do que meros contadores de histórias, os repórteres são agentes de informação. Para dar a conhecer a história, ela tem que ser criada num princípio concreto e verdadeiro, com factos verídicos. No entanto, estes não aparecem do nada, dependem da investigação feita pelo jornalista e da sua base de dados pessoal.

As fontes e os conhecimentos fornecem uma base sólida como ponto de partida para a narrativa e, por vezes, como rampa de lançamento para outras testemunhas importantes na história. Depende do jornalista o recolher contactos que possam vir a ser úteis na montagem da peça. O “sacar da informação” parte do repórter e do charme que este impõe nas fontes que vai criando e que, na gíria social, são chamadas de “cunhas”.

A existência desta rede de relações, desde o cargo mais importante até ao indivíduo cuja sociedade desconhece (como vemos no filme, as fontes diferem entre a polícia e a jovem drogada namorada de uma das vítimas),  vai possibilitar uma coordenação mais simples da própria escrita da história. Esta rede deve ser criada independentemente dos esforços pessoais que sejam necessários e, sobretudo, deve ser respeitada já que toda a informação proveniente dela vem acompanhada do tradicional “Confirmed, but I’ll denied if I have to”.

 

 

“What we have to do is build an alternative story, more plausible”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Além da evidente forma de escrever, que identifica a personalidade do repórter, há características que adjectivam um repórter que sabe o que faz. Ele tem que estar consciente de que um estudo inicial de uma notícia pode terminar com um facto que origina uma outra notícia, mas plausível. Ao saber lidar com a imprevisibilidade da mudança e com a confrontação de duas histórias e duas versões diferentes (que podem, como vemos no filme, tentar encaminhá-lo para um determinado ponto de vista), ele consegue encontrar os verdadeiros factos que vão deixar a descobrto a verdadeira história.

No jornalismo de investigação, traçar factos por ordem, encaixar as peças e cruzar dados é um ponto de partida para tornar compreensível, de forma diferente, um acontecimento da sociedade. Ao jornalista pede-se que seja coerente e sobretudo perspicaz. Que saiba lidar com pressões ou ameaças de poder e que tenha técnicas e trunfos para contornar situações mais complexas e encurralar os inimigos da verdade, que neste caso concreto são os senhores da política. A experiência domina na forma como um jornalista sabe construir a história, isso +e visível no filme se equipararmos Della a Cal. Cal sabe que tem que anotar todos os dados, mesmo que lhe pareçam inúteis, sabe que o encaixe das peças pode surgir a qualquer momento, a meio da noite ou de uma conversa informal pondo de parte um horário de trabalho. O jornalista interpreta um papel de actor quando monta uma reportagem – pergunta, suscita testemunhos, age como se não soubesse do assunto para “sacar” mais informação. Prescreve a fraude, anunciando-a com a verdade dos factos, e é, muitas vezes, a própria testemunha no local que dá mais força a peça e lhe impede a banalidade.

 

 

“This is a real story, is not open for interpretations, it doesn’t requires an opinion”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dar a volta a constrangimentos, além da capacidade de montar a história segundo coisas vividas, vistas, ouvidas, sentidas e experimentadas, é um dos difíceis papéis que o repórter tem de fazer. O envolvimento com as fontes, tomando como exemplo Cal e Collins no filme, pode atrapalhar a corrente da história. O confronto com determinadas experiências, como a de Della no tiroteio do hospital, leva a que se extraiam emoções que se desdobram em dúvidas e confusões no montar da história. Momentos mais fracos podem induzir a erros e a desistências, na perspectiva de repórteres mais novos, mas o estar no terreno aproxima o leitor da informação e dá credibilidade ao que é escrito – uma história real, sem pretensão a opinião e tendo como impulsionador principal o leitor. E o “hold the story” até se desvendar a verdade dos factos.

 

 

“Great, that’s an one page story, than she denied it, great that’s another story…”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No jornalismo existem duas perspectivas consoante as posições que se ocupam – a do repórter e a do director. Queiramos ou não, elas interseccionam-se obrigatoriamente, revelando situações de pressão. Para o lado do jornalista, a peça é o que verdadeiramente importa, sendo que pela parte do director a venda de jornais e a parte financeira é a que suscita mais interesse.

A conjugação das duas tenta fazer-se, e isso é visível no filme, mas apenas até ao momento em que a deter da história não implica perdas económicas. Quando isso acontece, a posição de director assume o lugar certo e é visível a submissão do jornalista para com o superior.

Apesar de por vezes, a conjugação da verdade não ser o extremo necessário para o director, que tem que pensar nas publicações que o público procura independentemente do factor veracidade, ele é também um elo de ligação para a obtenção de mais informações. O quid pro quo que ele tenta sempre impôr, as negociações que tem com o outro lado detentor de informação, marca a sua sede de novidades e exclusivos mas é também uma mais valia para o trabalho do jornalista.

 

“A piece this big… people should probably have newspaper on their hands when they read it”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Apesar da constante importância dada ao on-line e aos blogs que nele crescem, State of Play vinca o carácter de verdadeiro que o papel ainda transmite. Insinuando que o blog é fonte de boato e coscuvilhice, Cal considera que ainda há o “respeito” de se imprimir a verdade no formato de um jornal em papel, que é por si só, um meio nobre do jornalismo.

 

 

“Did we just break the law?” “No, that’s what I called a damn fine reporting”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Com personagens que desepenham papéis diferentes e que mostram diferentes perspectivas de uma história, State of Play cultiva em nós a vontade de ser jornalista. Vincando o ar apaixonado que o repórter põe no seu trabalho e nunca descurando a nobreza da profissão, brinca com situações de pormenor como o facto de um jornalista ter que andar sempre com uma caneta e um bloco de notas.

Pondo de lado a presunção da importância do repórter, o filme põe-nos na pista da notícia, onde dois tiros certeiros começam por narrar uma história. Uma história que toma outras porpoções e permite outras descobertas. Um jogo de corrupção. Sangue. Intrigas. E a verdade escrita por um repórter.

 

 

publicado por jornalismoespecializado_jo às 19:15

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