Blog de Jornalismo Especializado, Universidade Lusófona Porto

07
Abr 11

 

 

 

 

 

O Correio da Manha e o Jornal de Negócios são bons exemplos de contraste a nível do jornalismo especializado versus generalista.

A seguinte análise remete para este diferencial, a fim de perceber as características que distanciam ambos, a nível informativo.

 

 

 

A estrutura do Jornal de Negócios divide-se em oito principais secções: Primeira Linha – as notícias de maior destaque do dia, de cariz económico-financeiro; Empresas – informação sobre diversas entidades do campo empresarial, informação útil a investidores; Mercados – contém cotações dos mercados e dos fundos nacionais e internacionais, investimentos, taxas de juro e câmbios e análises detalhadas dos movimentos da bolsa, ao longo de várias páginas; Economia – teor directamente associado a questões da economia portuguesa e problemáticas financeiras, estabelecendo geralmente um paralelismo político-social; Lex – aplicação de conteúdo jurídico ao âmbito financeiro, inclui ainda uma selecção da informação legislativa mais relevante publicada no Diário da República; Opinião – recolha de diversas perspectivas sobre determinados assuntos, redigidas por especialistas na matéria económica; Media e Publicidade – informação relevante do sector. Inclui ainda o destacável Negócios Mais – suplemento dedicado a edições especiais, como por exemplo a ‘Conferência Mobilidade Eléctrica’.

 

O diário remete exclusivamente para o domínio económico, financeiro e empresarial. É direccionado a um público que de alguma forma esteja envolvido em quaisquer destas áreas ou que mantenha um interesse particular por estas. Ou seja, supõe-se que o leitor que procura este tipo de jornal detenha um certo conhecimento, algumas noções como referências para a leitura; que seja alguém que acompanha os assuntos abordados e que compreenda um tipo de linguagem mais técnica, a fim de alcançar a mensagem transmitida e a dinâmica do jornal. Sendo o diário um jornal especializado, escreve para um público singular: leitores que precisam estar actualizados e bem informados (a credibilidade do conteúdos é determinante); que acompanham a bolsa de valores de muito perto; investidores que necessitam aconselhar-se sobre o sector.

 

 

O Jornal de Negócios utiliza uma linguagem mais elaborada, recorre a vocabulário inerente à área das finanças, mencionando expressões e termos muito específicos, como: ‘rating’, ‘funding’, ‘downgrades’, ‘coretier one’, entre outros. O grau de aprofundamento é elevado e específico: o ângulo de abordagem recai invariavelmente sobre questões económico-financeiras. Os temas são explorados recorrendo ao domínio dos conceitos relacionados e contextualizados através de ‘breves’, infografias (como gráficos das cotações), fotografias dos protagonistas da notícia, opinião especializada no sector – contam com entrevistas e comentários de economistas; com a colaboração de outros cronistas provenientes da banca, da política, de direito, e até do próprio jornalismo económico. Os títulos/leads empregues caracterizam-se por serem bastante concisos, referindo os pontos essenciais da notícia/reportagem. O Jornal apresenta apenas alguma publicidade referente a bancos, publicações jurídicas, entidades financeiras.

 

 

As fontes utilizadas são oficiais e estão devidamente identificadas, exemplos: ‘afirma Luca Mezzomo, um economista do Intesa Sanpaolo’; ‘segundo o porta-voz Olli Rehn, o Comissário dos Assuntos Monetários e Financeiros’; ‘o politólogo António Costa Pinto sublinha que’; ‘revelou Jorge Moreira da Silva, vice-presidente do PSD, ao Negócios’. A divulgação do site negócios.pt (onde o leitor encontra vídeos de declarações, infografias, ‘especiais’, fórum de discussão, blogues) pretende estabelecer uma ponte entre a versão em papel e a versão digital.

O Jornal de Negócios publica algumas ‘previsões’ de acontecimentos esperados no sector, mas sempre devidamente fundamentadas.

 

 

O Correio da Manhã é um diário generalista. Os assuntos económico-financeiros encontram-se reunidos num separador: ‘Economia’, de 3 a 5 páginas. Quando algum assunto deste âmbito merece destaque especial – o que é muito frequente - surge nas primeiras páginas do jornal, em ‘Actualidade’, e faz manchete.

 

A informação fornecida, comparativamente ao Jornal de Negócios, é muito menor e menos aprofundada. O ângulo de abordagem incide mais sobre as consequências de certos assuntos económico-financeiros na sociedade, do que propriamente na caracterização e exploração dos assuntos em si. O separador apresenta um diário da crise e uma agenda do mercado. A informação sobre mercados e bolsa de valores é muito reduzida: apresenta apenas uma tabela sobre o PSI20 Geral, uma tabela de câmbios monetários e um gráfico referente à Euribor. As notícias relacionadas com o sector empresarial surgem nas ‘breves’, ou seja são pouco analisadas. Ao longo das notícias principais há algumas caixas que permitem alguma contextualização. No entanto, o CM aposta na síntese, não desenvolve os temas muito além, assim, a abordagem não perde sentido mas a informação carece de dados mais específicos, que a complementem.

 

O leitor que compra o CM não está muito interessado em obter informação adicional, ou seja, procura manter-se informado o suficiente para falar do assunto, mas não para o discutir. Trata-se de um público muito heterogéneo, cujo interesse não são as problemáticas económicas em particular, mas sim o efeito destas no estado da nação.

 

Daí que a linguagem utilizada seja muito mais acessível, em comparação ao Negócios. O vocabulário é acessível; não utiliza praticamente termos técnicos, a não ser aqueles já muito referidos; apresenta os números arredondados e valores aproximados para facilitar a compreensão; utiliza alguma infografia e fotografias ilustrativas, quando necessário; articula, muito superficialmente, alguns conceitos mais falados na área financeira; recorre a metáforas para transmitir, de modo mais simples, determinada mensagem; apenas recorre a especialistas da matéria quando o assunto é de tal forma pertinente, no momento, que se torna imprescindível uma avaliação mais abrangente. Exemplo: na notícia: ‘Mercado já antecipou a subida de juros’, uma das fontes foi um economista da Deco (João Sousa).

 

O diário recorre a fontes institucionais mas também utiliza fontes não identificadas, por exemplo: ‘disse um banqueiro ao CM’; ‘fonte da empresa garante ao CM’; ‘outro dos presidentes dos grandes bancos contactado pelo CM afirmou’.

Os títulos a cor vermelha pretendem chocar o leitor, são muito directos e especulativos, baseiam-se demasiado em suposições, exemplo: ‘Salários e pensões em risco’; ‘Mercado já antecipou subida dos juros’; ‘Mexida no Iva admitida’; ‘Idade de reforma quase nos 66 anos’. Por vezes, através do título e das fontes anónimas, o CM avança certas hipóteses como certas, mas após a leitura percebe-se a falta de confirmação das mesmas, o que faz com que toda a notícia perca credibilidade.

 

 

A publicidade encontrada nas páginas do CM é de cariz variado: publicidade a eventos patrocinados (Estoril Open); publicidade a bancos e agências de crédito; publicidade a agências de viagens e de imobiliária e ainda ao jackpot.  


Em suma: ao passo que o Jornal de Negócios informa e aconselha o leitor, pretendendo ser um parceiro a que recorrem os investidores, o CM assume uma atitude de ‘denúncia’, revelando, muitas das vezes, informação pouco consistente.

 

 

 

Ana Azevedo

publicado por anaclaudiaazevedo às 11:28

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