Blog de Jornalismo Especializado, Universidade Lusófona Porto

02
Mai 11

O actual editor do Jornal de Notícias onlineManuel Molinos, marcou presença na ULP, como convidado de Daniel Catalão, para presidir mais uma aula de Jornalismo Especializado. Molinos falou da evolução do JN online desde o momento em que surgiu até aos dias de hoje, do seu posicionamento nas áreas digitais (Web e mobile) e em perspectivas e apostas futuras neste formato do jornal.

 

Manuel Molinos, jornalista há 21 anos, trabalhou no jornal Comércio do Porto, depois passou para o Jornal de Notícias impresso e neste momento ocupa o cargo de editor executivo do JN online. Quando Manuel Molinos transitou do JN impresso para o online, fez questão de encontrar profissionais de excelência na área multimédia que o pudessem acompanhar nessa transição e apoiar o seu trabalho. Neste momento, entre outros grandes profissionais, tem a seu lado a única pessoa capaz de fazer infografias em 3D em Portugal, um engenheiro com formação na área da comunicação.

 

 

Do impresso para o online


O JN foi em 1995, o primeiro jornal em Portugal a criar uma versão para a Web e a marcar presença na internet. Foi o primeiro diário português de relevância, de informação generalista, a actualizar diariamente a informação publicada na internet de uma forma mais consistente. Ainda assim, nessa altura, a presença online do JN resumia-se apenas à transposição integral e inalterada da versão impressa do jornal para a internet. Em termos técnicos isso processava-se de forma muito demorada e burocrática. Todo o processo era muito amador, semelhante ao dos outros jornais online que entretanto também foram surgindo, mas não deixou de ser um primeiro e grande passo para o jornal se posicionar na Web

 

Nessa altura, a direcção do JN destacou dois jornalistas para avançar com este processo: Nuno Marques, actualmente editor online do JN, e Hélder Bastos, que foi durante vários anos jornalista das versões impressas do Diário de Notícias e do Jornal de Notícias e, mais tarde, iniciou uma careira como professor na Escola Superior de Jornalismo. Actualmente, Hélder Bastos lecciona na Universidade do Porto.

 

Segundo o convidado, a transição efectuada entre o JN impresso e o JN online começou por ser muito gradual e ainda continua em curso porque o meio digital da Web está sempre a evoluir.

 

Renovação da edição online


Quando a chamada bolha da Internet estourou, no final da década de 90, houve um período de estagnação no qual ninguém sabia muito bem o que fazer com a Web. Segundo Molinos, “o mercado nunca esteve muito apetecível para apostar nestes meios de comunicação digitais”. Mas, nessa altura, o JN decidiu dar um passo em frente e operou uma grande renovação na edição online que resultou na mudança editorial do site.

 

A construção da base do site do JN foi um processo que foi sendo trabalhado ao longo de um ano, período durante o qual, segundo o convidado, foram feitas muitas alterações a nível gráfico, das ferramentas disponíveis e da utilização do próprio espaço virtual. Trata-se de um processo que ainda se encontra em evolução, de uma construção em contínuo progresso, uma vez que “a tecnologia não permite perceber o que é que vai estar em voga daí a um ano”. Um bom exemplo disso, são as redes sociais que quando surgiram, tendo em conta o seu sucesso e adesão de utilização a nível mundial, acabaram por ser integradas no site do jornal. Este é só um exemplo de algo que surgiu de novo na internet, que pôde ser integrado no site do JN, mas que ninguém conseguia prever que acontecesse.

 

Nesse processo de renovação do JN online, o editor quis que a redacção fosse “integrada” em todos os suportes, pois não queria distinguir os jornalistas da edição online dos da edição impressa. A intenção era colocar, a seu tempo, toda a equipa a trabalhar também na Web.

 

Cariz multimédia do JN online


O site tem um cariz multimédia muito forte. Manuel Molinos quis apostar em reportagens multimédia, narrativas gráficas com conteúdos multimédia diversificados. Quis juntar o áudio, o vídeo, a infografia e o texto para criar as narrativas online. Não apostou muito nas reportagens em vídeo porque não tencionava aproximar-se tanto do conceito da televisão. Por isso, não têm por hábito filmar conferências de imprensa e quando fazem entrevistas a certas personalidades optam por não fazer vídeo. Manuel Molinos tenta fugir à abordagem televisiva, bastando-lhe para este tipo de trabalhos o texto. 

 

Há processos técnicos e domínio de ferramentas que é difícil de alargar a toda a gente, mas o editor do JN online criou uma equipa de profissionais com domínio das ferramentas multimédia, um núcleo de jornalistas com capacidades para trabalhar na edição online. Profissionais com profundos conhecimentos na edição vídeo, Flash e Javascript . O trabalho e o conhecimento dos profissionais foi evoluindo, até que chegaram ao ponto actual em que os vídeos já têm um tratamento de imagem mais cuidado e sofisticado a nível gráfico.

 

Neste momento, já têm a redacção quase toda “integrada”, pois, quase todos os jornalistas publicam notícias na Web onde quer que estejam, porque têm instrumentos e conhecimentos para o fazer. Existe uma secção multi-plataforma na qual qualquer jornalista do JN tem acesso à plataforma online do jornal e pode publicar informação no site quer esteja na redacção do Porto, em Lisboa ou noutro sítio qualquer com acesso à internet. No entanto, existe sempre um pivot ou alguém responsável pela edição da informação na internet. Alguém que gere o site, não um editor, mas sim um pivot que vai controlando a informação publicada.

 

As redes sociais e o JN


Quando perceberam que era urgente marcar presença nas redes sociais, arranjaram um gestor de redes sociais e estabeleceram uma posição forte nessas redes. Esse gestor faz uma gestão muito alargada das redes e não se limita só a publicar alguns posts. As redes são fontes de informação onde ele procura notícias ou informações possíveis de serem utilizadas no jornal. Ele canaliza a informação, que considera importante, que as pessoas colocam nas redes sociais para o jornal e acaba por ser também o rosto do jornal nessas redes. 

 

Manuel Molinos afirmou que o JN quer ter uma posição activa e dinâmica nas redes sociais, ao contrário da maior parte dos meios de comunicação que mantém uma posição passiva. O jornal está presente em quase todas as redes sociais da internet (Foursquare, Orkut, Facebook, Twitter, entre outras) e esta presença tem-se traduzido num aumento significativo de tráfego no site do jornal.

 

O JN tem vários canais (Economia, Desporto, Geral e Gente) no Twitter e no Facebook, assim como também, alguns links de blogues temáticos no site. “Planeta Futsal” (lançado esta semana), “Os bichos” (primeiro blogue a angariar publicidade sozinho, sem que alguém fizesse algo por isso) e “Nós na rede”, são alguns desses blogues. Todos eles têm nas redes espaços próprios geridos pelos seus autores, jornalistas do próprio jornal. Estes blogues acabam por não ter um formato comum com os outros blogues porque têm mais conteúdos informativos.

 

O site do JN, tem como a grande maioria dos outros sites a possibilidade de partilha dos conteúdos. Esta possibilidade é tão valorativa para o jornal quanto para os próprios utilizadores. Da perspectiva do JN, acontece que o jornal tanto permite a partilha como também, e acima de tudo, lhe interessa que os conteúdos sejam partilhados pelos utilizadores. Pois, quanto mais cliques fizerem os utilizadores mais dinheiro obtém o jornal. Para os utilizadores, é simpático sentirem que têm a possibilidade de interagir com os conteúdos publicados, inclusivamente, enviá-los para outros utilizadores seus conhecidos.

 

Mudança do Sapo para o grupo Controlinveste


O site do JN pertenceu durante alguns anos à PT e estava alojado no portal do Sapo. Durante este período de tempo, a maior parte das visitas ao site eram efectuadas através do Sapo pelas pessoas que possuíam contas neste portal. Em 2009 o JN passou para o grupo Controlinveste, grupo que detém outros órgãos de comunicação, entre os quais, alguns jornais diários como o caso do Diário de Notícias, do Jornal de Notícias e d’O Jogo, assim como, a rádio TSF e o canal de televisão Sport TV

 

Quando o site saiu do domínio da PT e mudou para o grupo Controlinveste, a equipa julgou que iria baixar o tráfego mas, ao contrário, foi surpreendida com um aumento da frequência de vistas que fez disparar exponencialmente a visibilidade do jornal na internet. O que contribuiu para este aumento foi a ligação às redes sociais, visto que muita gente acede ao site através dessas redes, como também, o facto do Google ter passado a usar mais conteúdos do jornal.

 

Estas mudanças no site têm sido significativas para o JN porque se têm traduzido em records de tráfego (ainda no mês passado tiveram 23 milhões de page views do site), e na aquisição de vários prémios de ciberjornalismo em Portugal. 

 

Existe, no entanto, um problema que se põe actualmente no jornalismo online que é o investimento que é necessário fazer para manter um jornal na Web. A internet tem custos muito elevados, pois, necessita pagar licenças de programas, custos de utilização da Web, salários dos jornalistas, material que eles utilizam, entre muitos outros factores. O JN está muito bem equipado a nível tecnológico, mas o grupo Controlinveste não deixa de se preocupar com a forma como pode ganhar dinheiro com a edição online do jornal.

 

Rendimentos com a web


O primeiro produto que foi lançado para ser vendido no mercado foi a versão e-paper do JN online. Esta versão do jornal surgiu para ser comprada e consiste num formato que na realidade já tem algum tempo. Mas para Molinos, o e-paper só faz sentido se os seus conteúdos forem dinâmicos e permitirem interacção do utilizador, como é o caso das fotogalerias, reportagens vídeo, links para outros sites, etc. No entanto, tudo isto implica investimentos de produção e financeiros. Para ele, o formato que existe actualmente não faz sentido não sendo dinâmico. 

 

Ele defende que na Web não se pode pensar vender simplesmente a informação, porque a internet sustenta uma cultura de gratuitidade na qual as pessoas estão habituadas a consumir de forma livre e sem custos associados. Aliada a esta prática, está a cultura da pirataria. Actualmente, por mais que alguns tentem, é quase impossível romper com estes conceitos e actividades. Portanto, ou o que é vendido é realmente excelente e raro ou nem vale a pena pensar vender porque se não tiver estas características as pessoas não se dispõem a pagar, vão antes procurar obter gratuitamente o mesmo produto noutro sítio qualquer na Web. Manuel Molino, referiu a existência de “produtos prémio” associados à área da comunicação. Trata-se de produtos que alcançam a excelência e por isso merecem ser comprados na internet. Mas estes produtos obrigam a investimentos, humano e material, elevados e à elaboração de grandes investigações e trabalhos que aliciem o público.

 

Para além dos e-papers, o JN tem vendido alguns conteúdos informativos para a empresa do Metro do Porto e para outras empresas colocarem em ecrãs em diversos locais.

 

Área mobile


O investimento na área mobile é outra mudança significativa na estratégia financeira e tecnológica do JN. Esta é uma área de negócio que se está a tornar muito importante, pois são cada vez mais as pessoas que compram smartphones

 

Se existe um produto novo o JN aposta nele para marcar posição no mercado. Neste momento já têm aplicações para o iPhone, iPad, Android e outras versões mobile. Estas aplicações usadas nos smartphones são pagas, o que não constitui problema aparente para o público, porque quem compra um telemóvel destes já está a contar ter que pagar a utilização da internet. No entanto, os meios de comunicação têm que ter em conta que as aplicações que fazem para serem pagas nos smartphones têm de ser úteis e atractivas porque senão o público não adere.

 

Eles tentam estar em todo o lado e fazem-no de forma “integrada”. Não lhes interessa muito o facto do conteúdo não poder ser diferente para as várias plataformas e que isso se traduza numa utilização ainda pouco funcional, o que interessa é marcar presença. 

 

Quem faz as aplicações para os smartphones é uma equipa específica de profissionais pertencentes ao grupo Controlinveste. Estes profissionais trabalham no sentido de desenvolver conteúdos para aplicar nas mais recentes versões mobile que vão surgindo no mercado. Trata-se de engenheiros informáticos que pertencem ao departamento de informática do grupo. 

 

Por: Lícia

 

publicado por líciacunha às 16:54
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