Blog de Jornalismo Especializado, Universidade Lusófona Porto

02
Mai 11

A jornalista da RTP, Paula Martinho da Silva, tem desenvolvido trabalho na área da moda, especialmente, sobre a sua componente mais económica. Para falar sobre o seu trabalho esteve presente na ULP, a convite de Daniel Catalão, docente da unidade curricular de Jornalismo Especializado. Abordou a questão da evolução desta área em Portugal, falou sobre as suas reportagens elaboradas a partir de visitas a feiras internacionais de moda, das conversas com criadores ilustres desta arte e da posição que este sector ocupa actualmente em Portugal e em Espanha, tendo exposto o caso particular da empresa Inditex, a maior empresa de distribuição de roupa do mundo.

 

 

 

Abordar a moda de outra perspectiva


Enveredar pela área da moda no jornalismo não foi algo pensado quando ainda estava na Universidade, mas sim uma ideia que surgiu quando começou a trabalhar como jornalista na RTP. Paula Silva afirmou, que é possível trabalhar a área da moda num sentido mais interessante e menos vulgar ou fútil, num formato mais apelativo que os meios de comunicação possam aproveitar. Disse ainda, que as notícias sobre moda não têm de aparecer no final do telejornal, pois existem áreas no jornalismo que ainda não foram exploradas e que constituem nichos de mercado muito interessantes. Exemplo disso, é o caso da convidada que explorou a área da moda do ponto de vista da economia e do marketing. Uma forma diferente de abordar este universo.

 

Quando começou a trabalhar na RTP, percebeu que a moda era um sector que era tratado de uma forma superficial e considerado uma futilidade que interessava apenas às mulheres. A RTP fazia apenas a cobertura de eventos como o Portugal Fashion ou de feiras de grande envergadura a nível internacional, como os desfiles de moda sazonal de Paris, Milão, etc, mas os textos e abordagem do tema eram sempre apenas acerca das novas tendências ou dos novos materiais utilizados nesse momento e pouco mais. Paula Silva começou, então, a trabalhar com os criadores de moda e a apresentar trabalhos jornalísticos que abordavam outras perspectivas desta área. Começou a visitar feiras internacionais, a estabelecer contactos com diversas empresas nacionais e internacionais e a acompanhar eventos nacionais, todos eles ligados à área da moda e do pronto-a-vestir. 

 

Ao longo do seu trabalho de investigação sobre moda em Portugal, tentou perceber que quantidade existia de criadores com marcas próprias, qual o volume de negócios dessas marcas, se vendiam muito ou não, se eram reconhecidas em Portugal e no estrangeiro, etc. Percebeu então, que existem designers de moda em Portugal que trabalham para um mercado mais diversificado e que afinal conseguem viver da moda. Miguel Vieira é um desses exemplos. É um criador de roupa e também de acessórios de moda (sapatos, carteiras, etc.) Assim como, Fátima Lopes, que apesar de não ter um volume de vendas muito representativo, tem uma máquina de propaganda bem montada a produzir grandes campanhas de marketing que sustentam e promovem o seu trabalho, colocando-a na ribalta do sector. Ou o caso de Felipe Oliveira Baptista, um português radicado em França e actual director artístico da marca Lacoste.

 

“Made in Portugal”


Paula Silva comentou, que o têxtil e o calçado portugueses chegaram a ser comentados internacionalmente pelas piores razões. Pois, por um lado, não tínhamos grandes criadores nacionais e limitávamo-nos a produzir colecções em série encomendadas pelo estrangeiro. Por outro, não nos conseguimos ver livres da polémica associada à indústria nacional que recorria muitas vezes ao trabalho infantil.

 

Em Portugal as produções eram feitas de uma forma anónima e ainda, hoje em dia, muitos criadores estrangeiros que recorrem à produção portuguesa preferem que nas etiquetas da sua roupa conste “Made in Europe” ao invés de “Made in Portugal”. Segundo a convidada, “comprar um saco Louis Vuitton é uma forma de comunicação” e as pessoas não assumem bem os criadores nem as produções nacionais, chegam mesmo a cortar as etiquetas em que conte “Made in Portugal”.

 

Na sua perspectiva, os nomes das marcas não podem ser nomes portugueses senão não têm sucesso. As marcas podem ser portuguesas mas têm que ter nomes estrangeiros para ter sucesso mesmo em Portugal. Esta imposição dos nomes estrangeiros, especialmente ingleses, acaba por ser global, constitui um requisito obrigatório para as marcas e os países a nível mundial. Portugal tem alguns exemplos de marcas nacionais com sucesso, com nome estrangeiro. A Swear e a Fly London são duas marcas de calçado que fazem prova disso, assim como a Parfois, uma marca de acessórios de moda que também é portuguesa e tem lojas espalhadas pelos continentes: asiático, europeu e africano.

 

Micam – feira de calçado de Milão


A partir do momento que conquistou o seu espaço na RTP, começaram as idas ao estrangeiro para assistir a feiras internacionais de moda e calçado. A Micam é uma feira de calçado que ocorre duas vezes por ano que a convidada costuma visitar e reportar. Em cada visita que faz costuma efectuar cerca de três reportagens e para tal tem que arranjar sempre novidades para os seus trabalhos, sejam elas sobre um assunto da actualidade que interesse para a própria informação, sobre novos materiais usados nas colecções, sobre novos estilistas que surjam, etc.

 

Depois dos franceses, os portugueses são os que têm uma presença mais visível nesta feira em Milão. No entanto, segundo estudos efectuados pela convidada, esta concluiu que Portugal tem poucas marcas. Este facto conduziu a novas investigações sobre o motivo pelo qual temos muitas indústrias de têxteis e poucas marcas relevantes. Um dos motivos pode estar relacionado com o facto de nos termos acomodado às encomendas e produções em série para o estrangeiro. Outro motivo pode ter a ver com a dificuldade que sempre existiu na relação entre empresários e designers de moda, uma vez que os empresários muitas vezes negligenciam a parte criativa em prol dos lucros que uma peça tenha que alcançar.

 

Seja como for, existem em Portugal, a par dos designers de moda que referi acima, algumas empresas de calçado de grande sucesso. Um desses casos é a “Ferreira Avelar & Irmão”, uma empresa de Santa Maria da Feira que “calça” o chefe de estado francês, Nicolas Sarkozy. Outro caso é o exemplo dos sapatos da marca portuguesa “Swear” que foram muito elogiados pelo presidente do EUA, Barack Obama. Trata-se de pequenas histórias que fazem com que Portugal tenha relevo.

 

Ao contrário de Portugal, Espanha é um país que tem muitas e importantes marcas. Galiza tem sediadas algumas marcas de relevo espanholas. O norte de Portugal foi completamente ultrapassado pela Galiza. Segundo Paula Silva, quando tínhamos um mercado trabalhado não o aproveitamos e agora só conseguimos trabalhar para nichos de mercado. A verdade é que, qualquer marca que seja, que não esteja integrada num grande grupo que a suporte e ajude financeiramente a expandir-se, não consegue sobreviver no mercado global.

 

“Tenho uma blusa igual à tua”


A convidada levou um exemplo de uma reportagem sua sobre a Inditex, a maior marca de distribuição de roupa a nível mundial. A reportagem intitula-se “Tenho uma blusa igual à tua” e foi transmitida na RTP, no programa “Linha da Frente”.

 

A Inditex é uma marca espanhola que possui uma fábrica gigantesca que produz roupa para diversas outras marcas, como: a Zara, a Pull & Bear, a Bershka, etc. O grupo exporta para 77 países e centenas de peças fabricadas para a Inditex são feitas em Portugal. O transporte para a Europa é, normalmente, feito por camião e para o resto do mundo é feito por avião. Este grupo reserva-se o direito de não dar entrevistas nem fazer publicidade directa. A entrevista concedida à equipa da RTP, da qual Paula Silva fez parte, constituiu uma situação particular e exclusiva.

 

As marcas do grupo Inditex têm observadores espalhados por todo o mundo, atentos às últimas tendências da moda, que visitam os desfiles mais relevantes para apreender novos modelos que possam servir de inspiração para as suas peças. A “haute couture” transforma-se assim em “prêt-à-porter”. Esta questão conduz a dois factores, o primeiro está relacionado com o problema chamado plágio, cópia de originais que se transformam em peças facilmente encontradas um pouco por várias lojas em todo o mundo, e o segundo factor está directamente relacionado com o primeiro e tem a ver com o facto de ser possível comprar uma peça qualquer numa loja em Portugal e encontrar-se alguém noutro lado qualquer do planeta com uma peça vestida igual a essa. Daí o tema da reportagem. 

 

A Zara é uma das marca que copia os modelos que mais se destacam nas passerelles, faz-lhes pequenas alterações de design e lança essas peças no mercado com etiqueta Zara mesmo antes da própria marca original. Assim, uma peça que aparece num desfile importante é plagiada e colocada à venda nas lojas Zara mais rapidamente que a marca que criou o modelo original. Daí que existam os fãs da Zara a par dos que odeiam a Zara e que não admitem o plágio ou não gostam de andar vestidos igual ao “resto do mundo”. A Zara possui um plafond para pagar as multas atribuídas por plágio de modelos de outras marcas.

 

Por:Lícia

 

publicado por líciacunha às 17:10
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