Blog de Jornalismo Especializado, Universidade Lusófona Porto

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Mai 11

Manuel Fernandes Silva, jornalista da RTP, foi mais um dos convidados a presidir a aula de Jornalismo Especializado e a partilhar histórias e experiências adquiridas ao longo do seu percurso no jornalismo. A questão da importância da publicidade no desporto, a exigência de imparcialidade ou, pelo contrário, a presença da emotividade nos relatos desportivos efectuados pelos jornalistas, as audiências televisivas de programas de desporto e a mediatização do futebol, foram apenas alguns dos temas abordados pelo convidado.

 

 

Com uma vasta experiência na área do jornalismo desportivo televisivo, Manuel Fernandes Silva, tem acompanhado de perto grandes eventos internacionais nesta área, que vão tendo lugar em diversas partes do mundo. Para o convidado, o trabalho dos jornalistas da área do desporto tem que partir muito da sua experiência pessoal porque, apesar de se tratar de uma área que merece reflexão, não há muita informação escrita sobre este tipo de jornalismo. O jornalismo desportivo não deve ser uma área exacerbada nem menosprezada no jornalismo, deve ocupar o seu lugar e marcar a sua posição como qualquer outra área do jornalismo. A um jornalista do desporto são requeridos conhecimentos específicos da área mas não uma especialização técnica. Ele deve estar à vontade para falar sobre o tema mas não tem que entrar no domínio técnico das “sub-áreas” de um determinado desporto, como por exemplo o caso do futebol, não tem que dominar os conceitos e regras específicas da arbitragem ou as estratégias do treinador. Os conhecimentos que o jornalista deve possuir nesta área devem estar ao mesmo nível dos conhecimentos dos jornalistas de outras áreas especializadas, como a cultura, a política, a economia, etc. Segundo o convidado, não faz jornalismo desportivo quem sabe muito sobre desporto, mas sim quem sabe fazer jornalismo e tem conhecimentos sobre esta matéria. A experiência que o jornalista vai adquirindo ao longo do seu trabalho é fundamental e contribui para se tornar num melhor profissional da comunicação no mundo do desporto.

 

Presença das emoções no desporto


Existe uma certa irracionalidade associada à área do desporto, porque há paixões nesta área que se reflectem no jornalismo. As pessoas em geral julgam que os jornalistas desportivos mantém um posicionamento imparcial relativamente ao desporto mas, ao contrário disso e segundo o convidado, “os jornalistas desportivos em Portugal, falam, escrevem e respiram futebol”, o que significa que essa imparcialidade, apesar de se impor nos discursos dos profissionais da comunicação, é muitas vezes difícil de gerir e controlar. As emoções estão muito presentes na área do desporto e é inevitável que elas surjam no trabalho do jornalista. Tem de haver um domínio constante por parte dos jornalistas, sobretudo, das suas paixões pelos clubes de futebol. O jornalista não pode permitir que a carga emocional prejudique o seu trabalho e tem que salvaguardar sempre a ética profissional.

 

Um exemplo mencionado pelo convidado para ilustrar a forte presença da carga emotiva associada ao desporto, foi o momento em que Nélson Évora conquistou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 2008. A esse momento juntou-se ainda outro, que foi a subida do atleta ao pódio para ser condecorado e durante o qual se pode ouvir o hino português a soar em Pequim. O momento em que ele recebeu a medalha no pódio acabou por ter tanto ou mais impacto emocional nos telespectadores, que o momento em que ele venceu a competição e se tornou campeão.

 

Opinião versus imparcialidade


O trabalho do jornalista desportivo é, segundo Manuel Fernandes Silva, normalmente, mais criticado, mais vigiado e mais escrutinado. É-lhe exigida uma maior isenção no trabalho que produzem e, por isso, têm que estar mais atentos às interpelações alheias. Na área do desporto, os jornais, as rádios e as televisões contactam muitas vezes os jornalistas para auscultar a sua opinião sobre determinados assuntos e para tentar perceber se essa opinião é coincidente com a sua. Mas isto não acontece só com os meios de comunicação, pois quase todas as pessoas, actualmente, têm opiniões formadas sobre o desporto e tentam, também, saber quais são as opiniões dos jornalistas desportivos. No fundo, como diz o convidado “a sociedade está cheia de árbitros e jogadores de bancada” e os jornalistas têm que lidar com um público que é ou pensa ser especialista nesta área.

 

A opinião e a imparcialidade são conceitos contraditórios, no entanto, estão muitas vezes presentes neste tipo de jornalismo. A imparcialidade e a indiferença vão, à partida, contra a área do desporto, mas, existe uma excepção que tem a ver com o relato de eventos desportivos. Na narração deste tipo de eventos, tanto na rádio como na televisão, segundo Manuel Fernandes Silva, “há espaço para sensações, emoções e até opiniões”. Existe a figura do narrador e a do opinante, mas o próprio narrador, sem opinar, tenta transmitir sensações que vão além do trabalho jornalístico comum. Isto coloca a dúvida se este trabalho é então meramente jornalístico. Na opinião de Manuel Fernandes Silva não é, porque ultrapassa o trabalho do jornalista. Na transmissão televisiva ou radiofónica de uma narração desportiva, por exemplo de um jogo de futebol em directo, o jornalista deve tentar levar o espectador até ao estádio, deve tentar fazê-lo sentir o jogo como que se ele estivesse presente no local. Não se trata apenas de transmissão de informação mas sim da tentativa de aproximação do público ao que está a ver ou, simplesmente, ouvir. Deste modo, torna-se inevitável a transmissão de emoção por parte do jornalista, em relação ao que está a observar e é natural que existam eventos que o público sente de forma mais emocionante porque também o jornalista se deixa levar mais pela emoção do momento. O repórter de pista efectua um trabalho muito relevante, no sentido em que tem de estar atento, procurar perceber o que é que não está a ser transmitido pelas câmaras e colocar o telespectador ou ouvinte a par de tudo o que está a acontecer. Este trabalho é conseguido através do empenho dos jornalistas e do apoio técnico da realização televisiva. Os super slow motions, por exemplo, contribuem muito para isso.

 

Gestão da dualidade de posturas


No caso da narração dos jogos de futebol entre uma equipa portuguesa e uma estrangeira, muitas vezes, o jornalista vê-se quase na obrigação de tomar partido pela equipa do seu país. Assim como, nos jogos com a selecção portuguesa, o público aceita e até valoriza que o jornalista inflacione o desempenho da equipa nacional e que até grite mais no momento dos golos marcados pelos jogadores do seu país. Já nos jogos entre equipas de clubes nacionais, é-lhes exigida total isenção na transmissão da informação na rádio, na televisão ou na imprensa. Esta dualidade entre a obrigação de isenção e a transmissão de emoção, não é fácil de gerir neste tipo de jornalismo. Parece suposto que em certos momentos o jornalista se transforme numa “espécie de máquina” ou “camaleão”, como afirma Manuel Fernandes Silva. No caso da imprensa desportiva, se por exemplo, um jornalista que trabalha para um determinado jornal demonstrar apreço por um clube de futebol, esse jornal pode ficar conotado a esse clube e isso não é abonatório para o jornal. No nosso país, ainda não constitui prática comum os jornalistas desportivos assumirem o seu clube publicamente ou no meio de comunicação onde trabalham.

 

Muito raramente acontece encontrar-se um jornalista que utilize adjectivos em áreas do jornalismo, como a política ou a economia, no entanto, é normal ver-se no jornalismo desportivo um jornalista comentar o “extraordinário remate do jogador x” ou o melhor ou pior “desempenho do árbitro y”. A valoração do desporto não só é utilizada no jornalismo desportivo, como parece quase obrigatório fazê-lo. Tal sugere, que esta atitude pareça ter sido assim convencionada ou que nesta área do jornalismo as pessoas estejam à espera que o jornalista emita as suas opiniões. Mas o jornalista ou desempenha o papel de comentador ou de moderador, nunca ambos simultaneamente e, segundo Manuel Fernandes Silva, quando se passa de moderador a comentador “já não se pode fazer marcha atrás”. Existem, no entanto, casos de jornalistas que já têm um certo prestígio e estatuto no mercado e que lhes é permitido moderar programas e comentar algumas peças.

 

Audiências do desporto

 

As audiências dos programas mais vistos nos últimos anos em Portugal, atiram o desporto para o cimo da tabela. Entre 2005 e 2010, os programas mais vistos nos canais de televisão em Portugal foram apenas acontecimentos desportivos, mais concretamente, grandes competições de futebol, como a Taça da Liga, a Liga dos Campeões e a Liga Europa. Isto só vem demonstrar e reafirmar a importância que o desporto, e em especial o futebol, tem no nosso país. Estes números acabam por revelar que os telespectadores portugueses são apaixonados por futebol e que, por isto, este desporto que move milhões, de euros e de pessoas, não necessita de se promover nos media, nem de criar uma relação com eles porque ao contrário disso, são os media que andam sempre atrás dos clubes de futebol. Seja nos jogos grandes ou em simples treinos de uma equipa qualquer, os media estão presentes e a produzir conteúdos informativos sobre isso. Em Portugal existem no desporto, quatro produtos principais: o FC Porto, o SL Benfica, o Sporting CP e a Selecção Nacional, sendo que esta última é um caso, relativamente, mais recente de mediatização desportiva no país.

 

As restantes modalidades existentes no país, têm um longo e difícil caminho a percorrer para alcançar os media. Trata-se de um investimento que passa pela difusão de informação sobre eventos relevantes que mereçam a atenção dos jornalistas e que justifiquem uma publicação. Os responsáveis pelas modalidades existentes, mas pouco conhecidas ou divulgadas em Portugal, têm de investir em estratégias de comunicação eficazes e decisivas. Têm de captar o interesse dos media e provar que merecem ser mediatizados. Para Manuel Fernandes Silva, a promoção destas modalidades ainda não é bem realizada em Portugal porque é feito pouco investimento neste sentido.

 

Mediatização no futebol


Para o convidado, hoje em dia, os assessores de imprensa dos clubes principais portugueses são encarados como “bloqueadores de imprensa”, porque não existem para ajudar os jornalistas, mas antes para fazer política de controlo. Para controlar e dificultar o seu trabalho. Segundo Manuel Fernandes Silva, não é fácil fazer jornalismo nesta área em Portugal. Todos os contactos dos clubes com a imprensa são devidamente regulamentados. Os jornalistas não podem escolher com quem falar, não podem falar quando lhes convier nem durante o tempo que precisarem, somente, quando o assessor de imprensa permitir, durante o tempo que ele decidir e no local onde achar mais adequado. As entrevistas ou comunicados dispensados à televisão, estão sempre condicionados a locais equipados com painéis publicitários e as entrevistas realizadas aos jogadores ou técnicos dos clubes têm sempre, obrigatoriamente, como pano de fundo esses painéis. Então, o trabalho dos media não se resume apenas à entrevista ou transmissão de declarações, implica também publicidade televisiva que o clube quer ver difundida. As agências de comunicação fazem muita pressão sobre o trabalho dos jornalistas, mas têm também uma postura muito interesseira em relação aos media porque os utilizam como veículo publicitário. Por vezes, essas agências oferecem aos jornalistas a possibilidade de fazerem entrevistas aos membros do clube, no entanto, estas ofertas trazem sempre associado algum tipo de interesse. 

 

Há também marcas que contactam os jornalistas para lhes propor tentar arranjar uma entrevista com um jogador. Nesse caso, o órgão de comunicação contacta um clube, pede autorização para efectuar uma entrevista e faz uma proposta compensatória a esse clube para a proposta não seja recusada. Tratando-se de um jornal, este pode, por exemplo, garantir uma reportagem alargada sobre um jogador com uma fotografia em destaque na capa da edição, naturalmente, com a publicidade da marca que propôs a entrevista incluída. Um exemplo similar a este, apresentado pelo convidado, foi a reportagem sobre Óscar Cardozo publicada numa edição do jornal “A Bola”. Na capa deste jornal aparece uma fotografia em grande plano do jogador com umas chuteiras da Nike e na reportagem em si surge uma caixa de texto, supostamente escrita pelo jornalista, a mencionar diversos pormenores apenas relacionados com essas chuteiras. 

 

Publicidade na área do jornalismo desportivo


Como já se pode ver acima, o desporto anda muito ligado ao negócio publicitário das marcas, e os jornalistas por mais que tentem não conseguem contornar este esquema tendo que o aceitar. Têm que se colocar num estado de alerta constante. Em algumas situações é-lhes até conveniente tirar partido disso, mas noutras devem ser cautelosos para não permitirem que as suas peças se transformem em spots publicitários.

 

A empresa em Portugal que detém o exclusivo da publicidade estática nos estádios de futebol é a “Olivedesportos”. Os jogos de futebol são um produto caríssimo que, apesar de muitas vezes não garantirem a liderança das audiências, garantem sempre um enorme retorno monetário através da publicidade. Exemplo disso, é o facto de numa transmissão televisiva de um jogo de futebol ser contabilizado o tempo em que a publicidade aparece nessa transmissão. Isto é, existe uma pessoa específica para contabilizar o tempo em que certa marca é publicitada na televisão durante a transmissão de um evento desportivo. No passado, a publicidade estática e a cobertura mediática dos jogos de futebol não era feita da mesma forma que é hoje em dia. Até aos anos 80 era feita “em regime de voluntariado”, a partir dos anos 90 as estruturas de publicidade cresceram e agora existe uma política de marketing extremamente bem organizada. Foi com o surgimento dos canais de televisão privados que as audiências ganharam importância e começaram a ser mensuradas. A partir desse momento aumentou a aposta na publicidade televisiva ligada ao desporto.

 

A título de curiosidade sobre a questão da publicidade nos estádios de futebol, o convidado partilhou o facto de existirem certas zonas no interior do Estádio do Dragão, onde se podem ver placards de publicidade de algumas lojas do shopping Dolce Vita. O que implica que, numa transmissão televisiva de um jogo neste estádio, os repórteres de imagem tenham que prestar especial atenção para não captar imagens onde se possam ver essas publicidades, pois isso poderia constituir um problema enorme para a UEFA. É muito dispendioso ser sponsor oficial de futebol, por isso, é absolutamente proibido publicitar marcas que não patrocinem os jogos. Os patrocinadores oficias podem processar a UEFA se isso acontecer.

 

Internet ameniza o processo de envio


Actualmente, o trabalho dos jornalistas está mais facilitado nos locais onde ocorrem eventos desportivos de grande envergadura, como o caso dos Jogos Olímpicos ou das grandes Competições de futebol, no entanto, nem sempre assim foi. Hoje, já se podem encontrar nesses locais todas as ferramentas necessárias para o jornalista fazer o seu trabalho, mas nas pequenas competições ainda se encontram muitas dificuldades. Com o computador o jornalista consegue fazer todo o seu trabalho, desde editar, tratar e enviar as peças para a redacção. A internet também veio facilitar muito o envio das reportagens, no entanto, segundo Manuel Fernandes Silva, este ainda continua a ser o momento de maior tenção para os jornalistas. O trabalho efectuado na televisão é um trabalho de equipa e está sempre dependente das dificuldades técnicas que possam surgir e que muitas vezes dificultam e atrasam o processo.

 

Por: Lícia

publicado por líciacunha às 10:56

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