Blog de Jornalismo Especializado, Universidade Lusófona Porto

17
Mai 11

 

 

 

Muito mais que as vicissitudes e conspirações político-militares encobertas nas sociedades, este filme, é um retrato exclusivo do jornalismo de investigação.

A partir de um jornalista de excelência que se vê numa vasta teia de informação enigmática e anónima, de reviravoltas inesperadas onde a perspicácia, inteligência, integridade, coragem e perseverança sobressaem.

                Toda a história começa por um homicídio de um jovem alegadamente drogado. O jornalista Cal McAffrey vai cobrir este crime. Primitivamente, é um caso como dezenas de outros que se enquadram numa simples notícia de jornal, que sobrevive um ou dois dias. Para além de um jovem, foi morto um outro funcionário de uma pizzaria perto do local da morte do homicídio anterior. No dia seguinte, um possível suicídio de Sonia Baker.

                Inicialmente as mortes da noite para o dia parecem estar desconectadas até um antigo jornalista, Cal McAffrey, entrar em cena e descobrir, juntamente com Della Frye, uma inexperiente jornalista, as ligações perigosas destas mortes.

               

Passo a passo, os jornalistas irão encontrar, através de provas e factos, indícios que ligam a morte do jovem ao “suicídio” de Sonia. Neste sentido, descobrem que há uma grande ligação entre o governo e uma empresa de segurança privada, onde Sonia esteve inevitavelmente envolvida e, consequentemente pagou com a sua morte. Temos portanto um homicídio, não um suicídio.

                Para além do deslindar com minúcia estes meios perigosos, com muito dinheiro em jogo, onde não há integridade ou qualquer sentimento digno de elogio que se destaque. Este triller retrata detalhadamente como é o jornalismo de investigação, como se faz jornalismo de investigação e como é ser jornalista de investigação, com tudo que este envolve.

                São vários os pontos focados ao longo do filme, desde logo um contraste entre jornalistas. De um lado, Cal McAffrey, um profissional experiente “muito caro, e demoro tempo demais”. Do outro, Della Frye, uma profissional inexperiente “ambiciosa, é barata e produz artigos a toda a hora”. Um contraste do antes e depois. Antes com Cal, onde as tecnologias não eram uma realidade dominante, e havia tempo (horas) para confirmar informação. E o depois Della, com a existência da plataforma online onde a palavra tempo é imperiosa nas redacções. Não há tempo de confirmar, as especulações são lançadas no mesmo minuto que são recebidas, o “vomitares online”.

                Este filme conota claramente o poder do jornalismo na sociedade, o dito quarto poder. É flagrante a medição de forças com os polícias e órgãos de soberania. Os jornalistas medem forças com os polícias, no que diz respeito à investigação. Os investigadores jornalísticos procuram incansavelmente informação em primeira mão para descobrirem toda a verdade antes que os polícias a descubram. É notória a preocupação dos polícias quando pedem a colaboração dos jornalistas, visto que são vistos, como concorrentes e investigadores fiáveis e possantes. Uma equivalência do poder policial quanto ao do jornalista. Há uma outra medição de forças em paralelo, o confronto com órgãos de soberania, neste caso, políticos. Enquanto os jornalistas procuram a verdade, os políticos envolvidos escondem a todo o custo, a verdade.

                Nesta medição de forças, é abordado um conceito importantíssimo para quem faz jornalismo de investigação, a procura da verdade “tu aqui só procuras a verdade, mais nada. És um procurador da verdade”. Este conceito levanta outras questões, nomeadamente a pressão interna e externa neste meio. A pressão interna que se faz no próprio órgão de comunicação como o tempo que é imposto ao jornalista para descobrir o que há por detrás na totalidade, mas também relativamente aos recursos financeiros que são escassos para este tipo de investigação “A notícia verdadeira é a falência deste maldito jornal”. O bom jornalismo leva as estas pressões internas porque é preciso confirmar a informação que é fornecida e ouvir todas as partes para fazer um trabalho que se aproxime da objectividade “preciso de uma confirmação sua, para um artigo que publicámos amanhã”. Para além das pressões internas, o jornalista é submetido a pressões externas para simplesmente, dar a verdade aos cidadãos. Há toda uma pressão externa de quem está envolvido nos casos e que ao contrário do jornalista, não quer que a verdade se saiba. A pressão externa, não só passa pelos envolvidos e/ou instituições “você vai ficar sem emprego, antes que o diabo possa dizer o seu nome”, mas também pelo próprio grupo económico a que o órgão de comunicação pertence “o problema é que os nossos donos corporativos (MediaCorp), não me deixam publicar nada disso”. Para que esta investigação jornalística seja exequível é preciso também ter o apoio do órgão de comunicação. O jornalista precisa de ser protegido, como é retratado no filme porque só assim poderá terminar o seu trabalho.

                Um filme excepcional que cruza ainda outras matérias. Inclui a questão da imprensa vs online, rematando que a imprensa ainda ocupa um lugar honroso na sociedade apesar do domínio massivo da internet. Não é algo substituível, mas dois meios a desenvolver. Apenas um confronto entre o antigo método do jornal em papel e a rapidez da informativa.

                Diferencia as fontes identificadas das não identificadas. As fontes identificadas, têm, sem dúvida, mais valor do que as não identificadas. São as fontes identificadas e oficiais que dão credibilidade ao trabalho jornalístico.

                E por último, mas não menos importante, as relações interpessoais. Uma fronteira ténue e por isso mesmo exige um cuidado redobrado do jornalista, para não provocar ligações conflituosas. Esta situação, é evidente entre a relação do Cal McAffrey e Stephen Collins / Cal McAffrey e Anne Collins.

E ainda, a insistência e perseverança dos jornalistas quando lhes dão com a porta na cara consecutivamente e a coragem quando enfrentam o desconhecido, o inesperado. Características fundamentais de um jornalista de investigação.

                Um filme complexo e inteligente aliado de uma grande sensibilidade nas várias matérias.

 

Por: Carina de Barros

 

 

 

publicado por crnbarros às 02:48

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