Blog de Jornalismo Especializado, Universidade Lusófona Porto

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Mai 11

Os Estados Unidos da América viveu,  no começo dos anos 50, uma “febre” anti-comunista durante a “Guerra Fria”, mas os anos pós-2ª guerra mundial, piorou devido ao Senador de Wisconsin, Joseph McCarthy. Este, inaugorou uma verdadeira semi-ditadura que denunciava a presença de comunistas ou de todos aqueles que não concordavam com os seus actos administrativos.

Apesar de muita gente querer denunciar McCarthy, o rótolo de comunista era pesado para arcar sozinho; era notória a falta de coragem das pessoas.

É neste contexto, que a o jornalista Edward R. Murrow e a restante equipa de redação da CBS Television, decidem travar uma verdadeira batalha contra o politico, pois todos achavam que alguem tinha que se impor aos atentados dos direitos civis americanos. O programa “See it now” apresentado pelo Murrow, mostra a coragem de um jornalista em fazer frente a um senador norte-americano com um grande peso, nesta altura.

 

«Em 1935, Ed. Murrow iniciou a sua carreira na CBS, quando rebentou a 2ª Guerra Mundial, foi a sua voz que trouxe até nós a batalha da Inglaterra, Através da série radiofónica “isto é Londres”. Ele começou com todos nós, Com muitos de nós hoje aqui, quando a televisão estava na sua infância, Com o documentário noticioso “Veja Agora”. Ele tirou pedras a gigantes. Segregação, exploração de emigrantes, apartheid, J.Edgar Hoover, E a não menos importante luta histórico com o senador McCarthy (…)» sobre ED.Murrow,- parte do filme)

 

 O filme “Good night and good luck” mostra então, a luta da equipa CBS Television, contra McCarthy, sendo esta a premissa do filme. É um retrato sobre os direitos individuais dos cidadãos, e sobre a liberdade de imprensa. As pressões económicas, políticas e sociais pautam sempre o ritmo de trabalho da equipa.

 

O filme retrata a década 50, em que a comunicação de massas está ao serviço de uma sociedade de massas. Podemos dizer que a comunicação de massas é uma característica fundamental da sociedade de massa. Ela surgiu no séc. XIX, com o jornal diário, mas consolidou-se no séc. XX com a rádio, o cinema e o meio de comunicação de massa por excelência, a televisão. A comunicação de massa é a comunicação feita de forma industrial, ou seja, em série para atingir um grande número de indivíduos, a sociedade de massa. Os meios de comunicação serviriam não só para a informação, entretenimento, mas também serviriam para a publicidade e para a propaganda.

Os mass media eram então, comparáveis a seringas ou pistolas que injectavam os seus conteúdos de uma forma rápida, a indivíduos atomizados.

 

O filme “Good night and good luck” insere-se nesta época que surge a rádio, televisão e cinema, onde se passa a comunicar à distância através dos meios de comunicação. São estes que levam a mensagem a vários públicos, através do modelo de irradiação, trazendo efeitos imediatos.

O filme consegue retratar os estúdios da televisão dos anos 50, através das cores a preto e branco e ainda, o profissionalismo do mundo televisivo e jornalístico. Mostra-nos detalhes de um jornalismo tradicional, em que tudo é feito manualmente, ou seja, de um jornalismo tradicional.

É também, um filme que nos mostra como os jornalistas reagem, quando deparados com um problema: os pequenos dilemas e questões de integridade profissional e de ética com que a equipa de jornalistas da CBS se encontra a todo o instante, e que se debatem em pequenas trocas de palavras entre colegas em intervalos de emissão (CBS Television), adquirem uma espantosa dimensão universal. O realizador utiliza como veículo da sua inteligentíssima a reflexão política uma reconstituição minuciosa dum acontecimento verídico, quase documental na atenção que tem a todos os pormenores e no cuidado em não manipular os factos para servir qualquer paralelismo com a actualidade.

“Good night and good luck” é uma profunda e honesta análise da sociedade actual, não só sobre os direitos dos cidadãos, como também sobre a responsabilidade dos media numa sociedade cada vez mais dominada pelo poder da imagem (e palavra) no televisor (sociedade de massa).

Clonney cria uma personagem sem papas na língua, forte mas ao mesmo tempo perdido. O jornalista Ed. Murrow mostra no fim de cada programa seu, um certo abatimento, como se estivesse a medir as palavras que foram ditas por ele. Esta personagem, consegue transmitir uma imagem de honestidade através do seu discurso, sendo uma personagem em que acreditámos sempre.

O título do filme “Good night and good luck” é fruto da saudação que Murrow encerrava o seu programa. Este assume um significado irónico: era mesmo preciso ter sorte, neste tempo em que todos poderiam ser acusados de comunistas, visto que, qualquer um poderia ser acusado mesmo que não o fosse. Quanto a mim, o titulo não poderia ser mais bem escolhido, pois  Ed.Murrow tinha uma voz forte e marcante.

Clooney, de uma forma inteligente concentra quase toda a acção no espaço exíguo e fechado duma estação televisiva, imprimindo assim um ritmo trepidante aos acontecimentos que se sucedem, ao mesmo tempo que cria a ilusão de se estar a assistir quase em tempo real ao desenrolar do fascinante duelo de ideias entre o jornalista Edward R. Murrow e o senador McCarthy, na época da «Caça às Bruxas». Exemplo disto, é nos transmitido pela própria equipa de redacção, onde as nuvens de fumo de tabaco revelam o nervosismo destes jornalistas. A tensão emocional do filme é aliviada por uma cantora de jazz. O jazz era a moda na época, fruto da mudança que se vivia.

O filme é argumentativo e explicativo, e, por isso, acabará sendo também extremamente cansativo para aqueles que não vão atrás de bons diálogos.

As situações, mesmo as mais graves, não nos deixam a chorar nas partes mais dramáticas. Elas são expostas de maneira real, sem dramatizar, quase de modo documental. Ou seja, é um filme de situações. Gira em torno de uma história, mas não a faz o centro das atenções: o que importa aqui é como os personagens reagem a ela.

“Good night and goog luck” também toca em outro ponto cujo debate ainda é essencial, mesmo 50 anos depois: o papel social da televisão. O que fica mais claro ainda no último discurso feito por Morrow. A liberdade editorial está profundamente ligada à qualidade da TV, mas é preciso que os telespectadores percebam e exijam ambos. Caso contrário, a televisão é somente uma caixa preta e luminosa, como diz o discurso final de “Good night and good luck”.

A única falha que encontrei ao longo do filme foi a falta de história: o filme começa de uma forma rápida e avançada e para quem não estiver dentro desta realidade sentir-se-á perdido, e pode até nem perceber o filme.

 

 

É um filme de uma sobriedade exemplar, num registo a preto e branco que nos remete para os filmes de época e da época, cheio de sombras, com o fumo dos cigarros e a voz negra e doce de uma cantora de blues, um saxofone que se entranha no ambiente, as vozes sussurradas do medo, os olhares de quem tudo sabe e de quem tudo esconde, a perseverança de quem sabe quais são as prioridades e os valores que devem guiar a informação e o jornalismo.

 


 

Por: Joana Silva

publicado por joanassilva78 às 11:15

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