Blog de Jornalismo Especializado, Universidade Lusófona Porto

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Mai 11

São jovens, rapazes e raparigas ainda adolescentes. Ingénuos e imaturos, deixam-se fascinar por um mundo de brilho e glamour, onde o reconhecimento parece ser algo aparentemente fácil. São fruto de uma sociedade apologista da imagem e cresceram a ver meros desconhecidos tornarem-se famosos do dia para a noite. Vivem as expectativas criadas pela publicidade e alimentadas por castings, concursos, escolas de modelos e agências. A moda é um negócio, à escala mundial. A visão comercial é talvez a mais poderosa neste meio, onde sobreviver requer sacrifício e inteligência. No entanto, quem corre por gosto não cansa.

 

À procura do sonho

 

Quem procura, facilmente tem acesso a uma série de contactos: a oferta desdobra-se em agências de acting, modelling e publicidade; escolas de modelos; bookers e fotógrafos, recrutamento de figurantes, castings e captações… Há para todos os gostos. Para quem quer ser manequim; para quem quer participar em séries juvenis; para quem quer fazer anúncios… Muitos jovens tomam a iniciativa porque há alguém que lhes diz que são muito fotogénicos e que até têm as medidas perfeitas para desfilar na passarela. Outros são abordados na rua por representantes de escolas de modelos, que pretendem angariar novos alunos. Aliciados, pagam pequenas fortunas para terem uma formação que dura em média 3/4 meses, e que incide em áreas diversas como teatro, moda, fotografia e valorização pessoal.

 

Foi o caso de Isabel. Veio para Portugal para ingressar no ensino superior e conseguiu-o, arranjando de seguida um emprego para suportar as despesas. Conciliando trabalho e estudo, com muito esforço, não esqueceu um desejo antigo: “Sempre foi o meu sonho um dia ser modelo: desfilar, posar para as fotos…desde miúda, nunca desisti!”. Um dia, ao regressar das aulas, uma recrutadora da escola de modelos Next Time, convidou-a a frequentar um curso e Isabel aceitou. Contudo, saiu um pouco desapontada: “A formação acabou por não corresponder às minhas expectativas. A primeira vez que fui a uma agência de manequins descobri que não tinha aprendido tanta coisa assim. Há algo mais para aprender.” Mas a cabo verdiana de 24 anos não baixou os braços e conseguiu trabalho, nomeadamente fez alguns catálogos. “No início, dizem sempre que nos vão arranjar alguma coisa, mas ninguém fez nada por mim. Eu é que levei o meu book e fui à procura.” Acabou por ser agenciada pela Best Models, mas ganhou uma visão diferente da que tinha, “É um mundo confuso. Quem entra na moda tem que ter os pés bem assentes na terra, não se pode acreditar em tudo”.

 

 

Também Marcelo, finalista da licenciatura em Ciências da Comunicação e da Cultura, frequentou a mesma escola que Isabel. No entanto as motivações que o levaram a aceitar o convite foram completamente diferentes: “Gostei muito da experiência. Posso dizer que foi proveitosa. Ajudou-me a sedimentar e a exponênciar capacidades comunicativas cruciais para a área académica e profissional que estou a perseguir neste momento”.

 

Entrar no mercado

 

Elas querem crescer mais rápido do que a natureza lhes permite, ansiosas por aparentarem uma idade que não têm. Eles dedicam horas e horas ao ginásio, trabalhando para ter um corpo esculpido, que capte todos os olhares. Na maioria das vezes, pouco ou nada sabem de alta-costura, muito menos ainda sobre o respectivo mercado. Porém, querem aparecer! “Há cada vez maior procura. Muitos não querem ser modelos, mas sim fazer qualquer coisa na televisão.”, confirma Sofia Miranda, da escola Next Time. Seduzidos pela fama, idealizaram um conceito muito distante do verdadeiro.

 

Carina desde cedo despertou para essa realidade. O seu rosto exótico não passou, nem passa, despercebido aos olheiros da moda, tendo já recebido inúmeras propostas para trabalhar na área. Na adolescência fez alguns desfiles, estimulada ao ver as portas que, de um momento para o outro, se abriam diante dos seus olhos. Porém, estas primeiras experiências marcaram-na de uma forma que determinaria as suas escolhas futuras: “Fiquei com uma impressão negativa porque há mais contras do que prós, no mundo da moda. Desde que vi como as coisas aconteciam nos bastidores, perdi o entusiasmo todo.” Ainda visitou algumas agências mas aí encontrou mais contrariedades que a desmotivaram: "Comecei a achar estranho pois haviam agências que queriam que eu tirasse um curso. Enquanto que outras pessoas apostavam realmente em mim. Agora sei que um curso não valida nada. Se o modelo tiver potencial é a agência que vai investir nele". Decidiu deixar de fazer trabalhos. “Eu gosto muito de desafios e a moda não criava esses desafios para mim. Prefiro fazer coisas que eu escolho, não que sou obrigada a fazer”. Hoje, aos 22 anos, não se arrepende de ter apostado exclusivamente na sua formação académica, e defende que um curso superior lhe dará uma estabilidade profissional incomparável. “Quero fazer uma carreira sólida em jornalismo”, afirma.

 

Com efeito, viver da imagem é um investimento demasiado volátil, como afirma Cristina Paiva, image manager: “A moda é um hobbie, eu não a considero uma profissão. Não nos dá dinheiro fixo ao fim do mês e, quando muito, só se trabalha como modelo até aos 30 anos”. Cristina foi modelo e hoje é co-proprietária da agência Layjan. Os seus 25 anos de carreira ensinaram-lhe muito. “Em Portugal, praticamente não existe moda. Para manequins não existe mesmo. É difícil viver de desfiles: há poucos e são mal pagos. Ser modelo é uma luta muito grande”. Considera que a melhor idade para começar, na profissão, ronda os 16 anos, e sempre com o apoio dos pais. Mas na sua experiência já assistiu a um pouco de tudo: “Às vezes são os pais que influenciam os filhos, com 13/14 anos, a serem modelos, a tirarem um curso, o que é absurdo. É impossível prever como a pessoa vai crescer!”. Quanto a esse tipo de cursos, tem uma opinião convicta: “Essas escolas existem para tirar dinheiro às pessoas. Dão umas fotos aos alunos, que não servem para nada. E os profissionais que dão aulas não têm formação nenhuma. Não fazem selecção nenhuma, qualquer pessoa que chegue lá disposta a pagar quinhentos ou mil euros é aceite”. A ex-manequim discorda da acção que esses estabelecimentos promovem, quando por vezes convencem os alunos a tirarem o curso apenas por uma questão de realização pessoal, mesmo sabendo que estes não encaixam no perfil de modelo requerido no mercado. “Iludem muita gente, criam-lhes um castelo que não existe. São uma vigarice. E a prova é que nem um recibo dão aos alunos. Os proprietários enchem-se de dinheiro e não pagam nada ao estado”. Acrescenta ainda que, este tipo de situações deixa o país muito mal visto, no panorama internacional.

Isabel, questionada quanto à falta de recibos confirma nunca ter recebido nenhum, durante o tempo que frequentou a escola Next Time.

 

 Em relação aos critérios de selecção dos candidatos a alunos, na escola Next Time, Sofia Miranda esclarece: “Os alunos só chegam aqui através de convite. Fazemos uma entrevista e avaliamos o perfil de cada um. Conta muito a parte psicológica dos meninos, o comportamento que têm em casa, as notas na escola…se de facto têm perfil para frequentarem a nossa formação, serão escolhidos. E tanto no caso de menores como com alunos maiores de idade, devem vir sempre acompanhados dos encarregados de educação”. Garante também que “Os alunos, no final do curso, recebem um historial [com apontamentos das aulas] e uma lista de agências às quais se podem candidatar, nas quais confiamos. E damos acompanhamento, qualquer coisa sabem que nos podem ligar”.

 

Apesar de ser indispensável, ter o perfil certo não chega para consolidar uma carreira ligada à moda. A formação certificada e os contactos são também importantes. Além da persistência e do espírito de sacrifício.

O essencial é continuar a perseguir o sonho, sem deixar de acreditar que o destino merece sempre uma segunda oportunidade, quer seja na moda ou noutra área profissional.

 

 

 

 Por: Ana Azevedo

publicado por anaclaudiaazevedo às 09:20

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