Blog de Jornalismo Especializado, Universidade Lusófona Porto

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O filme “5 Days of War” de Renny Harlin retrata a invasão da Rússia à Geórgia em 2008. Juntamente com a narrativa da guerra, é focado o prisma do jornalismo de guerra, ao acompanhar a viagem de um jornalista de guerra e o seu repórter de imagem que lutam para se manterem vivos enquanto procuram mostrar ao mundo o que realmente acontece naquela zona de conflito. A cena de abertura é a frase do Senador americano Hiriam Johnson em 1918 – “The first casualty of war is truth” (a primeira vitima da guerra é a verdade).

 

É nesta questão que deve figurar uma deliberação sobre o jornalismo. A perda da verdade no decorrer numa guerra é um dado adquirido. Os interesses políticos sobrepõem-se aos verdadeiros acontecimentos de guerra, como as suas causas reais, quem “disparou o primeiro tiro”, o porquê da quezila ou o os atos que as tropas/milícias levam a cabo durante o período de conflito. No filme temos a clara perceção destes casos, nomeadamente dos crimes de guerra e de quem despoletou a guerra em si. Encontramos também a dificuldade de fazer chegar ao mundo a informação que os jornalistas de guerra lutam para reportar. Os interesses públicos divergem muito facilmente e são em grande parte deturpados pelos interesses políticos. Vemos neste caso, a situação do jornalista Thomas Anders que tenta transmitir os seus conteúdos e que vê essa tentativa frustrada com a desculpa que os editores não acham que haja interesse em mostrar a verdadeira realidade da guerra, distraindo a opinião pública com imparáveis programas sobre os jogos Olímpicos.

 

A par deste problema jornalístico encontramos uma certa deturpação da guerra em busca de audiências por parte do repórter de imagem Sebastian Ganz que vê no bombardeamento de um casamento e na busca de uma rapariga pela família uma oportunidade de público. Não é novidade que o que vende não são tanto as hard news mas sim aquelas que apela ao coração. Um país em guerra e os crimes lá cometidos não são tão fortes quanto se pode pensar, o ser humano não vai prestar tanta atenção a algo que se passa a milhares de quilómetros de distância, num sitio que nem seque sabe bem onde fica, quando quem sofre são pessoas anónimas. Se por outro lado, se mostrar esta realidade a par com a comovente história de uma rapariga que procura a família depois de um acontecimento trágico, o interesse público aumenta exponencialmente pois todos nos podemos relacionar, em certa medida com a personagem apresentada. Todos temos família e somos capazes de nos por no lugar de outro, ao sentir a nossa dor hipotética. É algo que chama pelo coração, uma “heart warming story” que atrai audiências e atenção para um problema muito maior. De certa forma podemos encontrar vantagens e desvantagens na utilização de uma história pessoal como ilustração de uma guerra.

 

Uma última questão que poderemos encontrar ilustrada no filme é a captação e possível transmissão de imagens chocantes. Põe-se a dúvida se será benéfico, ou sequer necessário, mostrar assassinatos por degolação, corpos de crianças mutiladas, entre outras coisas. Pode argumentar-se que é mostrar a realidade nua e crua, mas a utilização de imagens dessa natureza nem sempre é a mais indicada para essa ilustração.

 

O jornalismo de guerra é uma vertente muito delicada da profissão pois encontra muitos obstáculos (para além do perigo de vida) e dúvidas sobre o correto procedimento em diversas situações encontradas. O que se pode pedir ao jornalista é que faça o seu trabalho com profissionalismo e sensibilidade a casos frágeis, lutando contra os interesses privados.

 

Por: Susana Estácio Marques

publicado por susanamarques às 19:00

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