Blog de Jornalismo Especializado, Universidade Lusófona Porto

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Mar 10

                                           O jornalismo desportivo em Portugal

                     “A área do desporto em Portugal é o futebol”

 

   Hugo Gilberto é jornalista da RTP há 10 anos. Apresentador do Trio d’Ataque, carrega debaixo do braço aquilo que prova o que acabou de dizer. Os três jornais desportivos em Portugal – A Bola, o Record e O Jogo, enchem as páginas de futebol e a tudo o que a ele diz respeito. Hugo faz questão de contar – das 48 páginas que compõem um dos jornais, 6 são dedicadas a outros desportos, além daquele a que todos, independentemente de concordarmos ou não, chamamos desporto-rei.


Escrever sobre futebol

 

   A componente e técnicas de estruturação de uma notícia, essas sim tradicionais, quebram-se quando escrevemos sobre o futebol. Isto se fizermos parte dos três jornais desportivos, claro. Fora de Portugal, e nos países que têm mais que um jornal desportivo, o posicionamento da linha editorial é admitida pela própria imprensa. Já no nosso país, apesar de ser totalmente perceptível, “há uma tendência para ocultar uma tendência”, passa o pleonasmo. Toda a gente, mesmo quem não lê jornais desportivos e apenas esbarra com eles numa prateleira de papelaria, percebe. Senão vejamos. O Porto sofreu uma pesada derrota de cinco a zero (desculpam ter que recordar, portistas!) contra o Arsenal. No dia seguinte, como seria de esperar todos os jornais, gerais ou especializados, iriam abordar a questão. No entanto, nem sempre aquilo que é mais actual e de maior impacto faz manchete nos diários desportivos, outros acontecimentos relacionados com os clubes defendidos pelos desportivos são-quem-mais-ordena e fazem na capa as delícias dos adeptos:

 

 

A BOLA, 09-03-2010: “Benfica é a melhor equipa do mundo”

 

Record, 09-03-2010: “Estão com medo dele!” (Liedson, jogador do Sporting aparece na capa)

 

O Jogo, 09-03-2010: “HUMILHAÇÃO” (a fotografia da capa mostra três jogadores do FCP)

 

   As regras são diferentes para o jornalista desportivo. Além dos títulos e capas, as próprias notícias surgem numa linguagem quase erudita para quem é leigo no futebol. A verdadeira notícia é transformada numa crónica-de-jogo, onde misturada com os factos, surge uma certa criatividade literária, às vezes carregada de sarcasmo e ironia, se não for o clube de eleição a perder, aí a justiça emana das mãos do escritor/jornalista que vai fazer uso das mais exímias teses de defesa para justificar o jogo, injusto, muito injusto, do dia anterior. E ao leitor é-lhe exigido conhecimento e uma capacidade de descodificação arrepiantes. Ou então, apenas hábito.

   A parcialidade e a separação da informação e opinião não são uma realidade no jornalismo desportivo. O jornalista não representa, aqui, o papel de mediador que observa um acontecimento durante 24 horas e o sintetiza em meia página ou meio minuto de reportagem. A síntese toma a forma de análise. Os pormenores  de um treino de quinze minutos, e isto é só um exemplo, são levados ao ínfimo para que seja possível encher, no mínimo!, duas páginas do jornal. “No mínimo uma grande medida de criatividade”, ironiza Hugo Gilberto. Defende que nem todos os jornalistas especializados em desporto se vêem na postura destes jornais desportivos, que são invejavelmente mais vendidos que os generalistas, mas que representam apenas uma pequena parte do que é o desporto e o jornalismo desportivo.

 

  

 Jogos de futebol: jornalismo ou entretenimento?

  

   É discutível se a transmissão de um jogo de futebol é jornalismo ou entretenimento, na medida em que é feito, cada vez mais, por jornalistas. Mas, pondo de parte as audiências que certamente serão maiores que as de um jornal televisivo, há a ascensão de uma espécie de infotainement, visto que há rigor, preparação, contextualização da parte do jornalista que relata o jogo pondo de parte toda a carga emocional, mistura informação e entretenimento sem se socorrer dos “chhhhhhiiii quase que era golo, viste aquilo, incrível”.

 

  

Emoção da primeira à última página

   

   Não, não é apenas o slogan de um jornal desportivo. É a realidade social. O essencial para a discussão de jornalismo desportivo, e mais uma vez retomamos o futebol como campo principal, é perceber que ele mexe com as emoções e com a dimensão social do indivíduo. É o principal tema de conversa, independentemente do local, e é marcado por títulos que passam conforto, alegria, recados, sempre apelando ao coração dos adeptos. E o coração de um adepto é algo com que não se deve brincar!

   À minha pergunta, “porque é que compra jornais desportivos?”, a resposta dos entrevistados foi semelhante: o gosto de saber o que se diz do clube e de reter curiosidades sobre algumas coisas que escaparam à primeira vista… “e claro sabe sempre bem reviver a vitória e saborear as derrotas dos outros”.

   Os jornais desportivos, como salientou Hugo Gilberto, funcionam como os primeiros psicólogos e terapeutas da sociedade. A pessoa que vai comprar A BOLA, O JOGO ou o RECORD, sabe porque o vai e quer fazer. A manchete vai estar ligada a um determinado clube, o conteúdo vai impulsionar a emoções positivas. O amor a um clube toma um lugar demarcante na sociedade actual e é sempre bom saber que aquilo que amamos está exposto num pedestal, a ser defendido ou levado ao colo. Relaxa, acomoda e tira o stress matinal.

 

 

    Jornalismo ou comércio?

 

   Desporto em Portugal: provado que está associado ao futebol. Não descura as outras modalidades, algumas claro, mas baseia-se num conteúdo futebolístico seja de que liga ou importância for. A questão é peremptória, mas fácil de responder: porquê? Toda a gente sabe falar de futebol, mesmo que dê algumas bacoradas “fora-das-quatro-linhas”. É, tradicionalmente, o desporto rei. Consome as audiências televisivas, move multidões. Dá dinheiro. Apesar de tudo, e de muitos esforços que sejam feitos, não é fácil transfigurar o habitual de uma pessoa. E se esse habitual é fonte de rendimentos, também não há vontade. Se perguntarmos quem sabe que Portugal venceu a Taça das Nações em ciclismo ou Taças Internacionais, Ibéricas e Europeias em Wushu/Kung Fu, ninguém sabe. Mas o Benfica está quase a ganhar a Liga. O FCP está cada vez mais afastado. E Portugal vai ao Campeonato Mundial na África do Sul. Orgulho em ser português? É representado pelo esférico do futebol. Requisitos para ser um jornalista desportivo? Saber muito sobre todos os desportos, mas mais ainda sobre futebol.


 

 

 

publicado por jornalismoespecializado_jo às 09:03
editado por jornalismoespecializado às 15:58

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