Blog de Jornalismo Especializado, Universidade Lusófona Porto

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Mai 12

Entre a conquista de sucesso e as saudades de casa, ser imigrante é mais do que uma simples viagem de um país para o outro. É um motivo de orgulho para os que alcançam os objetivos traçados e de tristeza para os que se perdem pelo caminho. Pedro Kemako revela-nos como é a sua vida em Portugal, ontem, desamparado e quase sem teto, e hoje, com uma vida estabilizada.

 

Agostinho Neto, escreveu e caracterizou em "Havemos de voltar", o desejo de milhares de angolanos, hoje, por esse mundo fora. Antes vítimas da guerra civil, a Angola de agora, emerge nos seus filhos o eloquente anseio de regressar à casa. Pedro Kemako é um dos muitos rostos angolanos a residir em Portugal, mais concretamente em Viana do Castelo, onde cultiva a saudade descrita por Neto.

Enquanto este momento não chega, a esperança de regressar faz-se em pensamento, e a procura de uma adaptação consolidada em terras alheias é uma obrigação.

Contudo, com o passar do tempo, estar aqui já não é um sacrifício, “como diz alguém, quem vem a Viana fica e quando vai não esquece” revela-nos Pedro.

4h30 da manhã e a orquestra começa a tocar, 1, 2 e 3 despertadores em simultâneo dão o sinal de que é hora de seguir para mais uma jornada de trabalho. Da cama para a casa de banho é um salto. Logo vem a cozinha, onde os iogurtes e frutas são arremessados para uma saca, o pequeno-almoço é na estrada que vai de encontro ao Douro; destino, fábrica da Super Bock no Porto.

 

 

“Não é fácil ser emigrante”

O frio e o drama da ilegalidade são os maiores problemas "naquela altura a solidão era enorme, acompanhada de saudades dos familiares. Nas questões de saúde por exemplo, era necessário documentação legal. Em determinados momentos parecia surgir uma luz ao fundo do túnel, mas era pura ilusão “quando finalmente conseguia ser tratado, pagava mais caro”.

Quando se é emigrante, até ir a rua torna-se uma experiencia dolorosa, “fugia sempre da polícia. Não é fácil ser emigrante”.

Para Sandra Machado 35 anos, os seus 20 anos em Viana do Castelo contam com os mesmos problemas. “A guerra civil fez com que emigrasse a procura de melhores condições de vida”. Como todo emigrante, no começo viu a saudade manifestar-se de forma mais esclarecedora, “senti-me isolada e com saudades da família. Senti uma grande diferença na cultura e principalmente no clima. Não posso deixar de referir que senti uma certa indiferença em relação a minha cor e a pronúncia” confessa Sandra.

O caminho para integração passa por aprender a contornar a saudade “ligava sempre que tinha oportunidade. Escrevia e chorava imenso, mas era a melhor forma de ultrapassar toda a saudade”.

Chegar a casa é momento de renovar energia, porque amanhã recomeça tudo outra vez, “a maior dificuldade é a adaptação. É tudo tão diferente, as pessoas são muito mais reservadas, em Angola tudo é “família”.

Após duas décadas olhar para trás é um momento de paz, “valeu a pena ter escolhido este caminho pelas oportunidades que dificilmente teria no meu país.

Ainda assim, este é um caminho de dificuldade. Poder dizer, tenho uma vida estável representa lágrimas e muita persistência, “passamos por muitas dificuldades até conseguir ter uma vida estável. Existe muita burocracia para nos legalizarmos”.

Quando a integração é total, adota-se a pátria que antes desempenhou a mesma função. E o orgulho de tudo que construiu vem ao de cima, “orgulho-me de ultrapassar todas as barreiras que apareceram e conseguir ter uma vida estável. Tenho dupla nacionalidade e duas pátrias, considero-me filha de Angola e de Portugal”, diz Sandra Leonor.

A pouco mais de 40 quilómetros, na Povoa de Varzim, Jorge Caleia e Sérgio Airosa exprime aquele que parece ser o denominador comum dos emigrantes angolanos, “por estar a viver o meu país, um período bastante difícil de guerra, vim a procura de uma vida melhor”.

Os obstáculos foram muitos e a ausência da família era bastante sentida, “senti dificuldades, brutalmente significativas, em termos culturais e climatéricos. A maior das dores, a saudade, sem a estrutura familiar por perto, foi como se me tivessem tirado o chão, flutuando em céus incógnitos”, conta-nos Sérgio Airosa.

 

 

O risco revelador

Definida como à habilidade de confrontar o medo, a dor ou o perigo, a coragem caracteriza a pessoa perseverante que, mesmo com medo, faz o que tem a fazer e motiva-se a ir mais além. “Fugi dos conflitos em Angola. Mas hoje existem questões que obrigam-me a ficar em Portugal. Para além do trabalho na fábrica, consigo ter melhores condições de saúde, higiene e educação.

Os hábitos e costumes angolanos deixam de ter verbos conjugados no passado ”mantenho contacto com a família, amigos de infância, a internet e as redes sociais permitem uma conexão quase direta”.

Porém, este facto em momento algum foi motivo para uma integração menor no seio lusitano, houve sempre a necessidade de não se colar de forma extrema ao estilo angolano de ser “para ser integrado tinha que estar pronto a me integrar, e procurar conhecer mais a cultura portuguesa”.

Do desenho artístico, a prática de judo, passando pelo coro da igreja de caridade, vai pintando com contornos marcantes, a pessoa que é ”o que mais lhe orgulha é ser a pessoa que sou”.

E enquanto caminha, a luta entre o coração e a razão permanece ativa… “Queria poder regressar como previu Neto em Havemos de voltar, mas a vida ensinou-me que por vezes as obrigações tomam conta de nós. Existe uma grande interrogação no que toca a este assunto” finaliza Pedro Kemako.

publicado por yamuss às 23:38

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