Blog de Jornalismo Especializado, Universidade Lusófona Porto

14
Mai 12

Por: Regina Machado

Especialização: jornalismo cultural

 

Após a morte da avó, Manuel Santos Maia teve a sensação de perda de raízes, a sensação de que faltava esclarecer o seu passado, da recuperação da própria identidade. Desse pensamento e da busca identitária dele resultante, surge o projeto alheava.

 

Fonte

Uma das obras de Manuel Santos Maia: Moçambique Branco e Portugal Negro


 


  • O início

Excertos como este: “nesta introdução á perda de identidade (...) o que me parece desde logo implacável e irreversível é a precisão com que em tão rápido espaço de tempo fui desapossado das minhas relações com o mundo e comigo próprio. Como se acabasse de dar início a um processo de despersonalização, eu tinha-me transferido para um sujeito na terceira pessoa (ele, ou o meu nome, é) que ainda por cima se tornava mais alheio e mais abstrato pela imprecisão parece que... naquele instante com a minha imagem no espelho mas já desligado dela, me transformei para um outro sem nome e sem memória e por consequência incapaz de menor relação passado-presente, de imagem-objeto, do eu com outro alguém ou do real com a visão que o abstrato contém" [1] deram origem ao nome do projeto de Manuel Santos Maia (MSM). Após a leitura da obra de José Cardoso Pires, identifica-se com esta caraterização da personagem, alguém que sente uma perda de identidade, enveredando num processo de despersonalização.

Além de artista, Manuel Santos Maia também é professor. Lecionou no Instituto Português de Fotografia e, atualmente, na Escola Superior Artística e na Universidade Lusófona, ambas do Porto. Trabalha também no Museu de Serralves, no serviço educativo promovendo uma “educação com arte e pela arte” e enquanto desenvolve os projetos artísticos, é Comissário.

Alheava, surge em 1999 enquanto projeto final de curso na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, onde estudou Manuel Santos Maia. O poder do objeto, o poder de biografia que lhe é conferido foi fundamental para o surgimento deste projeto. Em sintonia com a memória sua, da sua avó e do seu pai (inicialmente reticente), os objetos que povoavam e que resistiram a tempos passados foram ganhando forma, ideia, vontade e acentuando a curiosidade. “África sempre esteve presente”, resume o artista. A busca pela identidade passada, pela realidade camuflada que notava pela hesitação do pai quando lhe pedia para saber mais, levou ao início do alheava. “Interessou-me o porquê do silenciar-se”.

 

  • Caraterização do projeto

 Alheava estende-se ao multiculturalismo, aos discursos colonizador, descolonizador e neo-colonial. É o resultado de um filme e de exposições que demonstram e revivem as mais variadas fases do artista, da sua família e consequentemente de todo um país (Moçambique). O alheamento que nos sugere o tema trata-se da evidência de Portugal face ao passado colonial e pós-colonial e da própria realidade dos portugueses que estavam em Moçambique por altura da Guerra Civil, militares ou civis. Surge aqui a necessidade de se repensar o ocorrido no período anterior a 1975.

O projeto dá conta não só do vivido, do experienciado mas também pretende sobressair as diferenças e/ou semelhanças que se vão notando conforme o afastamento; o que vemos hoje é diferente do que já vimos ou veremos.

 

  • O objeto

O objeto ganha o poder, em alheava. Resumidamente, cada objeto vale enquanto peça de museu. O espólio consiste numa reunião de objetos pessoais e familiares - como por exemplo as arcas e os caixotes típicos da altura, a mesa da sala de jantar, os livros com que estudava, etc. – que iam de encontro com a identidade perdida, ajudando-a a reencontrar-se. Faz ainda um levantamento tanto no campo das artes plásticas, literatura e cinema, por forma a adquirir vários factos e de sentir o que se dizia sobre o tema, principalmente cá em Portugal.

 

  • A desmistificação

“Porque é que o retornado é sempre o branco que vai para Moçambique e volta?” ou “Porque não escolhem um indiano ou um arquiteto ou engenheiro que foram para lá fazer projetos que só agora estão a ser descobertos?” são só algumas das interrogações e abordagens que Manuel Santos Mais pretende com alheava. O mito de que o português foi apenas para a guerra e voltou, que foi por algum motivo e voltou à sua origem, como se tudo se resumisse a esse facto.

Pensemos uma África europeizada, “quanto do modernismo foi africanizado”, tal como se denota por algumas obras de Picasso, Mondigliani, etc. Pensemos num país de uma liberdade incrível, onde todas as formas eram possíveis. O quanto África nos deu e a quanto nos possibilitou; “o que fica é a dádiva, não o que se tira”.

 

  • O filme

Resultado de um conjunto de imagens captadas na forma original pelo pai, parte fundamental no filme não só pela narração como pelo testemunho real e na primeira pessoa, Manuel Santos Maia realiza o alheava_filme, um filme ficcional e documental onde há a prova do distanciamento, do hoje e do ontem, do que é e do que foi outrora – o relembrar de um país pela voz de quem viveu o que vemos.

A realidade e os atos das milícias portuguesas, o apoderamento por parte das forças militares moçambicanas (FRELIMO), a reação, o medo e a luta dos colonos são realidades cujo alheamento não impediu que se cruzassem, mesmo que em momento algum se sentissem de outra forma, senão alheados.

Um filme de cerca de trinta (intensos) minutos de um impacto imagético inegável: as constantes contradições que as imagens nos interpõem face ao monólogo da narração dão-nos conta de que muitos dos factos que nos contam não correspondem à total/plena realidade que representam. Há o silêncio que muitas vezes surge mesmo em forma de palavras. O omitir.

 

  • A memória

 

Alheava retrata essencialmente a questão da memória. “É importante ir à memória. Ir, conhecer, rever os erros para que o momento seguinte seja de construção. Nunca apostando no tabu”. Chegou a altura de Portugal rememorar, reconstuir, repensar e rever a História. 



[1] De Profundis Valsa Lenta, PIRES, José Cardoso. Portugal, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998.

 

 

publicado por Regina Machado às 03:36

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