Blog de Jornalismo Especializado, Universidade Lusófona Porto

06
Abr 13

Luís Henrique Pereira: entre a “selva urbana” e a vida selvagem

 

Luís Henrique Pereira nasceu, como costuma dizer, em plena “selva urbana”. Mas foi desde pequeno que começou a namorar e a estudar com afinco outros ecossistemas, outros habitats, os habitats da vida selvagem. Luís Henrique Pereira é, por excelência, um amante da natureza e das suas metamorfoses, da sua pulsante e ultra-dinâmica vida animal, fascinante e autora de um dos mais prodigiosos espectáculos que o nosso mundo pode oferecer, o espectáculo fervilhante da vida no seu estado mais selvagem e glamoroso.

Por isso, mesmo vivendo numa grande urbe, sempre manteve a curiosidade de “captar a vida animal”, perceber as suas espécies, a lógica de comportamentos, a biodiversidade, em suma, penetrar mais um bocado nessa imensa esfera da natureza, da vida animal que anima as suas veias. Esta vontade imensa de conhecer outros habitats nasceu já numa idade jovem. Luís Henrique Pereira conta que, noutros tempos, enquanto os miúdos da sua idade se entretinham a coleccionar cromos de jogadores de futebol e de heróis de banda-desenhada, preferia, antes disso, reunir o maior número de cromos com animais estampados e, desta forma, ficar familiarizado, senão com o ambiente em que habitavam, pelo menos com a sua imagem, as suas características fisionómicas. Se com os cromos tinha a possibilidade de observar os animais que tanto o fascinavam, com as leituras dos naturalistas, como David Attenborough, acedia à teoria, aprofundava conhecimentos sobre as especificidades de certas espécies animais, bem como os seus respectivos ecossistemas, tão diferenciados, esplendorosamente ricos. A tudo isto juntou a vontade de se tornar um jornalista, um repórter intrépido e aventureiro, decidido a partilhar a sua paixão pela fauna animal, a sua diversidade, com o espectador, que deve experienciar o cenário natural que Luís Henrique explora e nunca o contrário, ou seja, o cenário usurpar o papel, a função do espectador. É isso que Luís Henrique Pereira pensa ser o mais sensato, o mais ético, quando nos leva a viajar, a nós espectadores, através da reportagem, do documentário, pelo mundo marítimo dos “cetáceos” que migram para águas açorianas ou até ao ambiente primaveril das amendoeiras a desabrochar em flor, onde também assistimos à luta pela sobrevivência animal, a luta que se trava entre um pequeno roedor e um falcão que sobrevoa imperialmente os céus, e que detecta com uma precisão térmica fabulosa o paredeiro da sua presa, identificado pela urina que liberta. É esta a verdadeira sensação que, na opinião de Luís Henrique, o espectador deve alcançar, por outras palavras, o espectador tem de se “sentir” transportado para o local da acção. E se o espectador é guiado pela mão do repórter, torna-se imprescindível o lugar da ética nas imagens, nas suas narrativas, na sua gramática sui generis. A ética está, como fez menção de sublinhar, “acima de tudo”, é um verdadeiro código de honra que o jornalista deve sempre, em qualquer caso, respeitar, mantendo uma relação muito próxima, de enorme fidelidade para com o espectador. O princípio está em ser sincero com quem nos vê, evitando manipulações, distorções, ampliações de realidades.

A realidade em que Luís Henrique assenta os pés é uma realidade múltipla, plural, feita de diferentes e fantásticos habitats, onde vivem as mais extraordinárias e cativantes espécies do mundo animal. Os animais, ao contrário das pessoas humanas, surdem inesperadamente no seu meio natural, sem truques ou encenações, pelo que o repórter deve permanecer num estado de vigília activa, tendo cuidado para não deixar escapar nenhum pormenor, com a consequência de que o animal observado e reportado abandone num ápice o espaço que a lente da câmara cobria. É preciso ter especial prudência, ter paciência e gosto e, mais importante ainda, ter a particular advertência de não invadir ou subverter o território do outro, o habitat natural de uma certa espécie animal. E quando o corpo humano já não consegue penetrar mais fundo nas fronteiras da vida selvagem, recorrem-se a outros métodos, improvisa-se por vezes, usa-se a imaginação, aplicam-se estratégias de campo, como aquela empreendida por Henryk Janowski, de camuflar uma grande objectiva com a figura de um ganso artificial, na tentativa de se imiscuir no ecossistema destes animais e, assim, conhecê-los melhor.

Luís Henrique Pereira teve a oportunidade de mostrar ainda algumas estatísticas impressionantes, que revelam a imaturidade arbitrária do Homem para com o planeta que o acolhe, julgando-se, infelizmente, “acima da natureza”. São dados que não deixam de surpreender, de apoquentar, as consciências humanas no seu todo: um quarto dos mamíferos está em vias de extinção; 13% das aves está em vias de extinção; um terço dos anfíbios encara a hipótese de extinção; 70% das espécies de plantas estão ameaçadas de extinção; ¾ dos bancos de pesca encontram-se esgotados. São dados que nos devem, a todos nós que ocupamos um lugar na Terra, preocupar e reanalisar, reflectir sobre o caminho destruidor que temos vindo, a humanidade entenda-se, a percorrer, desperdiçando recursos, emitindo excessivamente gases tóxicos para a atmosfera, pondo em risco a vida de milhares de espécies que possuem, como qualquer humano racional, o legítimo direito de viver, habitar, coabitar este mundo. Luís Henrique Pereira deixou ainda um conjunto de conselhos preciosos para aqueles repórteres mais corajosos, amantes da vida animal e da natureza, que sabem partilhar com dignidade a sua presença com as outras espécies de animais, tão magníficas quanto nós, seres humanos. Portanto, aqui ficam descritos alguns desses conselhos: ter um bom conhecimento do terreno que se está prestes a ocupar; estar preparado para condições geográficas adversas; envergar roupagem prática e adequada; transportar material de filmagem que se coadune com o local em questão; respeitar, sempre, os diferentes ecossistemas explorados. “Mergulhar num ambiente selvagem sem estar envolvido não vale a pena” – e toda a reportagem é sempre um mergulho, com as devidas distâncias claro, como aquele que é protagonizado pelo maior dos seres vivos alguma vez a habitar este mundo, a baleia azul, que pode alcançar 30 metros e 200 toneladas. Essa baleia azul mergulha no mar que Luís Henrique Pereira se esforça por dar a ver aos espectadores, para que possam fruir de um momento único, o de serem transportados para o habitat da vida selvagem.

 

Por Joaquim Pinto                  

publicado por joaquimpinto às 00:10

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