Blog de Jornalismo Especializado, Universidade Lusófona Porto

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Abr 13

Comecemos por um termo técnico. Falo de nefrologia. Paula Rebelo, jornalista especializada na área da saúde, convidada para a aula aberta realizada no âmbito da disciplina de Jornalismo Especializado, na Universidade Lusófona do Porto (ULP), foi distinguida recentemente pela Sociedade Portuguesa de Nefrologia, com base no seu trabalho jornalístico na “área da doença renal crónica”. De certa forma, já levantei o véu semântico sobre esta estranha palavra, que raramente é convocada nos media, sempre restritos a um vocabulário simples e acessível. A nefrologia é um ramo da medicina que se dedica ao estudo, diagnóstico e tratamento de doenças do sistema renal. Esta breve e redutora explicação serve para evidenciar uma das características inerentes à questão do jornalismo especializado, a saber, a da terminologia, isto é, a utilização acentuada de termos técnicos e conceitos, neste caso médicos, que permitem ao jornalista, familiarizado com o seu público específico, desenvolver temas e assuntos intrinsecamente ligados a uma área de especialidade. Mas primeiro, para se dominar esse vocabulário e traduzi-lo em ideias simples, facilmente apreensíveis por espectadores, ouvintes ou leitores, é necessário um apoio, uma formação especializada numa determinada área ou matéria. Paula Rebelo sentiu essa necessidade, precisou desse apoio, dessa mais-valia académia, e decidiu inscrever-se num mestrado de Comunicação em Saúde. Mas até ter escolhido a saúde como área de especialização no jornalismo, percorreu ainda um longo caminho, feito de outras opções, temáticas e interesses. Aos 17 anos ambicionava trabalhar no então jornal Blitz. Passou pelo Público, trabalhou em várias rádios, esteve associada a outras áreas específicas, nomeadamente, a Política. Até que, pela “força das circunstâncias”, Paula Rebelo foi incumbida de realizar uma peça jornalística num hospital. Foi nesse momento que o interesse pela área da saúde emergiu, apesar de imagens como sangue a jorrar sempre terem impressionado Paula Rebelo. A presença de Paula Rebelo, mais do que um simples discurso sobre jornalismo de saúde, constituiu uma verdadeira experiência de aula. Uma aula em que Paula Rebelo procurou rememorar certos conceitos, fundamentais à prática jornalística, como sejam o valor das notícias, a legitimidade e confrontação da fontes, a mediatização e replicação exaustiva dos mesmos temas noticiosos, a ética profissional e imagética, a questão dos públicos e da pertinência das histórias, se têm interesse ou não, se irão gerar impacto junto da opinião pública. Porque a notícia só é difundida se for persuasiva. Isto é, se não “vende”, se não é comprada, a notícia torna-se obsoleta, desde logo porque não é conhecida na esfera pública. Mas a notícia, como lembrou Paula Rebelo, “nunca está no meio-termo”, tem sempre um significado, uma razão subjacente à sua publicação, de um lado o jornalista que perscruta o facto, a novidade, do outro a fonte de informação, que nunca está alheada de algum tipo de interesse. Um dos valores que atribui significado à notícia tem que ver com a própria carga negativa que acarreta. A notícia, por natureza, transporta uma “saturação negativa”, posto que aquilo que é considerado “normal” ou simplesmente comum não é passível de se transformar em notícia, de surtir no público uma espécie de choque eléctrico, um impacto eloquente, que o faça interromper todas as suas actividades imediatas para consumir, naquele momento, o mais recente facto, a novidade, o elemento que vem acrescentar algo novo à ordem do dia. E o jornalista tem essa aura, esse “poder”, de absorver a perspectiva de uma realidade, de “mudar o cenário” que o envolve. O desafio está em inverter o generalizado ciclo de repetição a que uma notícia está sujeita, disputada pela avidez dos diferentes media, e procurar desenvolver jornalisticamente um tema a partir de outros pontos de vista, de perspectivas originais e inovadoras, ainda não exploradas no vasto mundo da comunicação social. Paula Rebelo dá um exemplo de como o jornalista pode ser criativo, televisivamente, nas abordagens que faz de determinados temas ignorados ou desconhecidos pela maioria do público. As doenças auto-imunes, patologias caracterizadas por uma deficiência ao nível do funcionamento do sistema imunitário, que desenvolvem anticorpos que deixam de cumprir a sua função de defesa do organismo contra potenciais agressões externas, passando estes a agredir o seu próprio organismo, são esse exemplo. Numa linguagem mais coloquial, são doenças que provocam uma revolta do corpo contra si mesmo. Ora, sob o lema tripartido de traduzir-simplificar-ser interessante, Paula Rebelo começa a sua reportagem sobre as doenças auto-imunes recorrendo a uma imagem, uma metáfora, que traduz inteligentemente este diagnóstico científico, cuja compreensão escapa a grande parte dos espectadores, nomeadamente a de um jogo de matraquilhos, em que um único jogador marca golos na sua própria baliza. Simples e lógico. Tal como num jogo de matraquilhos não faz sentido que um dos jogadores decida inserir a bola na sua baliza, também ao nível do organismo é anormal que o sistema imunitário comece a desenvolver anticorpos contra o organismo. Mas para se fazerem relações deste tipo, altamente bem conseguidas e concretizadas, é preciso que o jornalista domine muito bem o tema que está a tratar, que compreenda e possa desmistificar certos conceitos científicos, herméticos por natureza. Outra questão importante discutida por Paula Rebelo: a ética das imagens. A saúde é uma área que afecta particularmente as pessoas e, por isso, exige-se cuidado e precaução ao jornalista no tratamento deste tipo de assuntos, pois que na saúde há “pouca margem para erros”. Numa reportagem exibida na aula aberta, sobre o processo de tratamento e recuperação de doenças renais, é mostrada, a certa altura, a imagem do braço de um doente, intumescido, consequência natural da hemodiálise, que através de um filtro elimina as moléculas tóxicas que correm no sangue, devido justamente a problemas crónicos no sistema renal. É uma imagem que pode impressionar facilmente sensibilidades mais fracas, mas que tinha de ser, naquele contexto, utilizada, para que também os espectadores possam partilhar do sofrimento por que passam os doentes renais. Acima de tudo, é imprescindível proteger a vulnerabilidade dos doentes, evitar expor a sua privacidade e ter atenção redobrada a casos que envolvam idosos, crianças e situações críticas. Estes são, pois, os limites da liberdade jornalística nestes contextos. É estritamente necessário que o jornalista preserve o seu sentido ético, sobretudo quando trabalha uma área sensível e delicada. A bem da saúde do jornalismo.   

 

Joaquim Pinto    

publicado por joaquimpinto às 17:55

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