Blog de Jornalismo Especializado, Universidade Lusófona Porto

18
Abr 13

O perseguido e o perseguidor, por vezes, confundem-se. É a partir dos alicerces de uma consulta psicanalítica que se discutem alguns dos mais prementes problemas, questões e limites que a actividade jornalística, no contexto de uma redacção televisiva, encerra. Não é por acaso que este episódio específico da série The Newsroom se intitula bullies, substantivo inglês que, traduzindo, designa algo ou alguém que gosta de mandar, que ameaça, intimida, oprime, persegue. É, até certo ponto, uma qualidade que o jornalista deve observar. Até certo ponto, repito. Ou seja, até ao limite ético da liberdade jornalística, de questionar, de procurar saber, de querer legitimamente farejar o facto, se quisermos, o valor ‘sacrossanto’ da verdade objectiva. O que não impede o jornalista de optar por um registo mais agressivo, implacável por vezes, no momento da entrevista, sob a consequência de que, se esta estratégia for bem-sucedida, conseguir recolher do entrevistado a informação mais importante e pertinente. Mas nunca se esquecendo, porém, que deve respeito às normas deontológicas, bem como à dignidade imanente de quem é entrevistado. Este episódio representa precisamente essa querela instalada no âmago do debate jornalístico: existe uma única realidade que o jornalista, qual sacerdote do facto, daquilo que é única e exclusivamente afirmado diante de uma câmara de televisão, transmite objectivamente, de forma isenta, como se de um espelho se tratasse, ou antes poderá assumir um papel subjectivo, comprometido com a própria realidade a que se reporta e, assim, enveredar pelo caminho inevitável da interpretação dos factos? A palavra interpretação é justamente convocada por uma jornalista neste episódio, quando discute com o director, que advoga claramente a posição da neutralidade jornalística, a validade da informação fornecida por uma fonte japonesa sobre o acidente nuclear desencadeado em Fukushima. Aliás essa sequência, do ponto de vista da pragmática jornalística, suscita um interesse imediato: tudo se inicia quando Sloan, a dita jornalista, recolhe, em off-the-record, declarações basilares sobre as possíveis consequências que o desastre nuclear ocorrido na central de Fukushima poderia vir a repercutir no Japão e nos territórios vizinhos, informando-a, nomeadamente, de que, ao contrário da opinião estabelecida, os reactores nucleares tinham alcançado o nível 7 na escala que mede o impacto dos eventos nucleares, ou seja, o nível máximo, equiparado ao estado de emergência. Mas enfatize-se esta ideia – a informação foi atribuída à jornalista em registo off-the-record, o que significa que as afirmações prestadas não podem extrapolar o domínio privado, simplificando, não podem ser divulgadas. Ora, isso mesmo vem a acontecer, aquando da apresentação do jornal. Sloan, profundamente antagonizada com o trabalho pouco idóneo desempenhado pela tradutora de Tanaka-san, a fonte japonesa referida anteriormente, decide, numa atitude disruptiva (repare-se que a jornalista-pivot chega mesmo a retirar o auricular, deixando de ouvir as orientações do realizador) confrontar directamente, e em japonês, Tanaka-san que afirma reiteradamente, através da tradutora, que os reactores apresentam uma “condição estável”, mantendo níveis de radiação normalizados. “Mas não foi isso que o senhor Tanaka me disse de manhã ao telefone”, devolve Sloan, revelando, num gesto que é ao mesmo tempo profano e sagrado, representando a ruptura para com a fidelidade depositada pela fonte e a imperatividade de salvaguardar o valor supremo da verdade, a informação que recebera antes em off-the-record. Desta forma, Sloan anuncia em directo, num reforço veemente do eu, que há uma fortíssima probabilidade, confirmada por Tanaka-san, dos níveis de radiação de Fukushima atingirem o máximo da escala. O realizador do jornal fica pasmado perante tamanha insubordinação. Não é para menos. A jornalista, num acto ‘subversivo’, suplanta a objectividade, invoca toda a subjectividade da interpretação do facto, assume o duplo papel de entrevistadora e entrevistada, desconsiderando as declarações prestadas pela fonte em estúdio. Rebela-se contra a figura do jornalista-reprodutor ou intermediário, para se comprometer com uma função mais activa e interventiva no processo de construção da notícia. O registo off-the-record abre essa frecha, esse dilema: deve o jornalista consentir com o que lhe é transmitido e continuar a manter uma relação de credibilidade com as fontes; ou, ao contrário, deverá, consoante o grau de relevância da informação, revelar o conteúdo dessas fontes, em nome da legitimidade do interesse público. A meu ver, penso, afigura-se esta uma escolha definitivamente teleológica. O jornalista só deve revelar as afirmações que lhe são concedidas em registo off-the-record em situações extraordinárias, nos casos em que a informação não pode deixar de ser difundida, dado o seu carácter de importância absoluta. Isso sucede-se na sequência descrita. Sloan divulga as informações em off-the-record porque muitos são os interesses em jogo, principalmente no que diz respeito à protecção de vidas humanas. Mas a acção tomada pela jornalista em pleno directo não a absolverá da “suspensão”, decretada pelo director da redacção. O jornalista que perseguiu é agora o perseguido. Semelhante caso ocorre, embora sem consequências proporcionais, com um outro jornalista-pivot, Will, que neste episódio atravessa uma crise depressiva, entre outros factores, devido a ameaças de morte que recebe na internet, mormente por se revelar um acérrimo opositor dos direitos dos negros e dos homossexuais. Mas também por uma outra razão, suscitada igualmente em directo. Discute-se a hipótese de construção de uma mesquita perto do memorial das vítimas do 11 de Setembro, no Ground Zero, em Nova Iorque. A entrevistada acha isso “legal”, mas “incorrecto”. Entenda-se, legal do ponto de vista da liberdade religiosa, incorrecto do ponto de vista ético e humano para com os concidadãos que choram a perda dos seus familiares. Se o Islão é uma ameaça interna para a segurança dos Estados Unidos, se o Islão representa o medo de uma estratégia imperialista e teocrática sob a batuta da sharia, o Cristianismo também não está isento de crimes bárbaros que assolaram a história norte-americana, riposta o jornalista, muito perto da fronteira que separa o facto em debate do juízo subjectivo. E enumera um rol de exemplos, atrocidades perpetradas sob o estandarte do Cristianismo: o movimento Ku Klux Klan, que incendiou igrejas fundadas por populações negras, violou mulheres, assassinou civis, entre os quais crianças e trabalhadores; os neonazis, apologistas de um Cristianismo branco, depurado de influências nefastas; o Exército de Deus, radicalmente contra a prática do aborto, vandalizou clínicas e perseguiu médicos; personalidades como o reverendo defensor dos direitos civis Martin L. King, os presidentes John Kennedy e Abraham Lincoln, o músico John Lennon, todos eles assassinados por cristãos. Finda a argumentação impõem-se a questão: o papel do jornalista circunscreve-se ao plano de um mero moderador, um agente que capta objectiva e inocentemente o facto, o acontecimento anunciado; ou pode ter o direito de emancipar-se das estruturas factuais que nivelam esse mesmo acontecimento, analisá-lo criticamente, posicionar-se diante da notícia como um elemento activo e interventivo de uma comunidade de interpretação, que concorre para a construção, e não reprodução, da realidade noticiosa. Porque a notícia constitui sempre uma janela que se abre para o mundo. Quem abre essa janela é o espectador, o ouvinte, o leitor. Mas quem desenha a paisagem, quem conta a história, a sua origem, as suas consequências, quem atribui um papel às personagens é, efectivamente, o jornalista. O jornalista tem esse poder, define-se como um encenador do real. Abre e fecha a cortina da notícia. Discerne se o argumento é trágico ou cómico. Conhece os bastidores a fundo, participa neles. E, montado o palco, enceta a representação da realidade. A única objectividade no jornalismo é, passo a redundância, o próprio objecto. Tudo o resto, todos os ‘intérpretes’ que perscrutam de diferentes ângulos o mesmo objecto, possui uma qualidade subjectiva. O objecto é estático, o jornalista movimenta-se em diferentes perspectivas, à procura de um plano, de uma superfície ainda não visualizada. Implementa-se a dúvida: é o objecto que é olhado pelo jornalista, é o jornalista que é chamado pelo objecto? Quem é o perseguido, quem é o perseguidor? Parece-me que o jornalista, se bem que por vezes irracionalmente, acaba por vestir essas duas máscaras: pergunta e responde, procura e encontra. E, mesmo assim, não deixa de ser o arquitecto de uma realidade que se constrói, e que só é noticiada porque ainda não existe, ainda não foi publicitada. A capacidade do jornalista está em vitalizar o desconhecido, o facto não vislumbrado, e trazê-lo para a arena da esfera pública que, qual juiz inflexível, decide da sua vida ou da sua morte. O jornalista é, por isso, o encenador das peças que ainda não foram levadas à cena da vida real, social, política, cultural. E se a peça não frutificar, lá está o público, como um algoz, pronto a guilhotinar a história, remetendo-a para o caixote do lixo das narrativas, o palimpsesto, comummente aceite como arquivo, à espera que outro jornalista benévolo venha em seu auxílio, projectando-a novamente para o palco, a realidade em construção. Mas chega de reflexão. Adiante. Um outro exemplo, também em directo, que envolve o mesmo jornalista e, de alguma forma, a mesma temática, se bem que assumindo contornos distintos. A utilização de declarações registadas em off-the-record já não se discute neste contexto, mas todavia continua a subsistir o tratamento de questões fracturantes, caras ao jornalismo. Em estúdio é entrevistado o apoiante do senador Rick Santorum, candidato às presidenciais norte-americanas, conservador, adverso ao casamento homossexual e ao aborto. O apoiante do senador é um homem negro e homossexual. Percebem-se, desde logo, as questões ‘delicadas’ que estão em cima da mesa jornalística. O jornalista-pivot começa por interpelar o apoiante, recorrendo às próprias palavras de Santorum sobre a ameaça representada pela progressiva legalidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo. De alguma forma, o entrevistado vai esquivando-se às perguntas feitas, limitando-se a repetir que o senador é um grande homem e que merece ser presidente dos Estados Unidos. Rapidamente a torrente de questões disparadas pelo jornalista redundam em ataques de retórica inusitada, balas de fogo transformadas em afirmações corrosivas, autênticas ignomínias em forma de preconceito. O jornalista atenta contra a dignidade pessoal do entrevistado, despeita-o indecorosamente, humilha-o publicamente, desconsidera-o pela sua homossexualidade, pela sua negritude. Até que o entrevistado, num verdadeiro grito de revolta contra o ataque de afirmações e deduções preconceituosas de que foi objecto, decide dar uma verdadeira lição de moral ao jornalista, relembrando-lhe o seu papel, discorrendo um discurso apaixonado e patético. É óbvio que a função jornalística foi totalmente subvertida, sobretudo do ponto de vista ético. Uma coisa é investir numa estratégia mais ofensiva para com o entrevistado, nos casos em que este tende a fugir às questões colocadas. Outra coisa, absolutamente despropositada, tem que ver com as convicções pessoais que o jornalista adopta e como estas condicionam o comportamento do entrevistado. Mais uma vez nos deparamos com a mesma problemática: a subjectividade, mascarada de juízo de valor, emerge e destrona a objectividade; a emoção individual insurge-se contra a racionalidade matemática do facto em questão. Porém o jornalista não é uma máquina, comete erros, abusa da liberdade concedida, ultrapassa a esfera da normatividade ética, rompe com a sua própria natureza de simples mediador inocente da informação. O jornalista está sempre entre esta dupla condição ‘existencial’: persegue e é perseguido, olha e é olhado, reproduz e interpreta, forma e informa, é objectivo e subjectivo. No meio de tantas dialécticas, contudo, o papel do jornalista é decisivo neste sentido, no de contribuir para o funcionamento de uma democracia saudável e dialogante, crítica e esclarecida. Porque uma democracia só se consolida se houver alguém que a questione permanentemente.                     

 

Joaquim Pinto

publicado por joaquimpinto às 01:41

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