Blog de Jornalismo Especializado, Universidade Lusófona Porto

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Mai 13

A arte de Alberto Carneiro convoca a necessidade, filosófica e biológica, de regressar e vivenciar as origens, as raízes, as sementes que guardam o património, a génese humana. A natureza revela-se a mais sábia guardiã desse destino, é como uma mãe que transporta em si a fecundidade, a origem, a mais pura essência do homem, como ser criador e pensante, como intérprete das mutações que a natureza espelha nos seus ciclos.

 

 

                                                 

 

 

 

A obra de Alberto Carneiro confunde-se intimamente com essa mesma natureza, pulsante de “energias”, fonte de matérias de que o artista se embebe para encenar as suas esculturas, melhor dizendo, “momentos”, termo que Alberto Carneiro utiliza para designar a concepção de obra de arte, como se tratasse de um “ritual estético”. A arte de Alberto Carneiro investe-se profundamente de um carácter ecológico. Em 1973, nesse escrito seminal chamado Notas para um manifesto de uma arte ecológica, Carneiro afirmava o seguinte: “A arte ecológica será um regresso à origem das nossas próprias fontes; a reabilitação das coisas mais simples no significar da comunicação estética, não através de um processo de ordem cultural, na aquisição de valores de carácter transitório, mas pela consciência das essencialidades, pela penetração no âmago dos átomos, pela chamada aos contactos com aquele mundo que se define em nós sem os constrangimentos da complexidade social”. A sua arte é uma constante metamorfose, um diálogo genésico com a vida e com o outro, o espectador, que o artista entende como o “ser imaginante”, aquele ou aquela que interpreta, que se apropria do objecto artístico, lhe atribui um nome, o adopta, inscrevendo-o num cosmos de significados que se prolongam por uma extensa, talvez infinita, linha do horizonte, inesgotável, que só a vida, a arte, a natureza sabem equilibrar e manter.

 

 

 

 

 

Essa união, essa simbiose, a arte fundida com a vida, resultando numa relação íntima de transformações e renovação de sentidos, revela-se um paradigma fundamental na obra de Alberto Carneiro, sobretudo nesta exposição do artista que agora a Fundação de Serralves acolhe, intitulada Arte Vida/ Vida Arte: Revelações de energias e movimentos da matéria. A esta “unidade” se refere João Fernandes, antigo director do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, mas que ainda comissariou a presente exposição de Alberto Carneiro, num texto a que decidiu chamar As metamorfoses de Alberto Carneiro: Outros envolvimentos – “A arte e a vida contaminam-se reciprocamente através das suas metamorfoses, em processos de múltiplas transformações pelas quais uma forma se transforma noutra forma, um significado se abre a novos sentidos, a identidade do autor se assume na definição da sua alteridade e o desejo funde a matéria e o corpo na expressão da relação humana com a natureza”. A natureza é mais do que um elemento que se imiscui nas esculturas de Alberto Carneiro, concorre para transformar a sua arte, vitalizando-a e imprimindo-lhe movimento e “energia”, uma autêntica experiência sensorial, um pleno exercício estético. Não foi por acaso que outro nome maior da cena artística contemporânea portuguesa, principalmente no que respeita à performance, Ângelo de Sousa, ter apelidado Alberto Carneiro de “operador estético”, isto é, um criador que intervém na natureza com uma função bem definida, por conseguinte, transformá-la em arte, empregando-lhe uma nova vida, restituída, no fundo, “estetizá-la”. O primeiro “momento” com que nos deparamos na exposição fala-nos precisamente de vida, de como esta se envolve na natureza e a transforma.

 

 

 

 

 

À nossa frente ergue-se a Árvore da Vida, plantada numa posição invertida, a raiz quase a tocar o tecto, os troncos apoiam-se no chão, as folhas reúnem-se ao centro, dispostas sobre um pequeno prato de vidro, como que reflectindo a imagem do “ser imaginante”, que se funde com a peça, portanto, com a natureza, criando e recriando significados numa torrente fluida e esteticamente livre. Ao nosso lado, inscrita na parede, dispõe-se uma linha horizontal, que percorre aproximadamente oitenta metros do comprido corredor do museu, traçada a lápis, potenciada por esse instrumento inalienável da arte de Alberto Carneiro, a palavra, a escrita, um importantíssimo “material plástico” de que o artista se apropria. Esta linha de horizonte funciona como uma bússola, descomplexada e descomprometida, apenas livre, que norteia o visitante, o envolve num acto de pura intimidade, através dos pequenos espelhos instalados, que envolvem o espectador, o convidam a fazer parte da obra de arte, e assim insuflar significados ainda não formulados. “Cada um destes projectos deslocará a experiência individual do artista para um envolvimento do espectador, convidando este último à recriação e apropriação dessa mesma experiência numa possibilidade infinita de outros tantos eventos com aquele partilháveis. Através dos seus percursos por estes lugares onde a obra acontece, o espectador é convidado a formular os seus próprios significados”, constata João Fernandes no mesmo texto.

 

 

 

 

 

É esse envolvimento com o espectador que permite a Alberto Carneiro pensar a presente exposição como um “manifesto”, centrado nessa ideia fundadora da “demonstração de que a arte é o artista e também o espectador”, como se afirma no panfleto que contextualiza esta exposição. A arte é um “momento” intensamente vivido pelo criador e o observador, o artista e o espectador, Alberto Carneiro e o “ser imaginante”, e esta simbiose, esta relação de sublime e orgânica intimidade, possibilitará ao artista “envolver” o espectador, facultará ao espectador as “matérias” que lhe avalizarão o diálogo telúrico com a obra de arte, proporcionando-se deste modo uma riquíssima e fecunda experiência estética, em jeito de ritual.

 

 

 

 

                                

Todas as peças expostas valorizam a vida, a arte, e o espectador, trindade genésica que se apoia num baluarte imprescindível e propulsor, a natureza, que tudo transforma e penetra, que tudo cria e dissolve: a metamorfose das laranjeiras, os quatros elementos vitais que impregnam uma raiz de laranjeira, os bambus que convidam a uma aventura labiríntica, as vides que se enroscam no chão e trepam a parede, a oliveira que se apresenta ao mesmo tempo numa posição vertical e horizontal, as outras oito oliveiras suspensas, olhadas pelos espelhos colocados em frente, adornados por canas da Índia, e que reflectem as palavras inaugurais desta exposição, Arte, Vida. A natureza converte-se em obra de arte e vive através desse diálogo que artista e espectador, ou “ser imaginante”, entretecem, numa comunhão de “momentos” singulares e indivisíveis. Uma reabilitação, portanto, das pequenas coisas essenciais.

 

 

 

 

 

 

Alberto Carneiro nasceu em 1937, na freguesia de São Mamede do Coronado (concelho da Trofa). Trabalhou, quando jovem, em várias oficinas da sua terra natal, desempenhando aí a função de santeiro. Com a idade de 17 anos matricula-se na Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, no Porto, e mais tarde, na mesma cidade, no período que decorre entre 1961 e 1967, dedica-se ao estudo da escultura na Escola de Belas-Artes. Completa em 1970 uma pós-graduação obtida na Saint Martins School of Art, em Londres, onde contacta com Anthony Caro e Philip King, seus professores. Ainda na capital britânica, no contexto de uma exposição, When Attitudes Become Form, toma conhecimento das principais correntes artísticas emergentes, casos da land art, a arte povera, ou a arte conceptual, com cujas “formas de expressão artística” se identifica, concorrendo estas para o alargamento do seu campo de “indagações”.

 

 

Texto e Fotografias: Joaquim Pinto

publicado por joaquimpinto às 21:28

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