Blog de Jornalismo Especializado, Universidade Lusófona Porto

15
Mai 13

De acordo com a Segunda Conferência Ministerial sobre a proteção das Florestas na Europa em 1993:

 

“O manejo florestal sustentável é a gestão e utilização das florestas e das áreas florestais de uma forma e a um ritmo que mantenha a sua biodiversidade, produtividade, capacidade de regeneração, vitalidade e potencial para cumprir, agora e no futuro, funções ecológicas, económicas e sociais, a nível local, nacional e global, sem causar qualquer dano a outro ecossistema”.

 

Desde há muito que a floresta se transformou num negócio. A floresta é vista por muitos como uma indústria, como um “ganha-pão”.

Tal como Duarte Dinis que tem uma empresa de Exploração Florestal há 40 anos e desde sempre sobreviveu à custa disso.

 

Que tipo de exploração é que realiza?

Abate e transporte.

 

 

 

 

 

Quais são as espécies que explora?

Essencialmente, pinheiro bravo e eucalipto são as duas espécies dominantes e é o que é mais procurado. E depois em menor percentagem outras espécies, tais como, carvalho, chamaeciparis (cedros), bétulas, castanheiros, entre outras. Que servem para lenha, para o aquecimento das habitações.

 

De quanto em quanto tempo é que cortam?

Fazemos um trabalho contínuo, até ao final do ano já tenho lotes (parcelas de terreno com àrvores) para explorar.

 

Como é que adquire esses lotes?

Trabalho com lotes privados e públicos. Os públicos são leiloados em hasta pública, são-nos enviadas parcelas de terrenos e cada um escolhe o terreno que pretende explorar nos leilões. Depende dos anos, mas normalmente faço mais explorações em lotes públicos do que privados.

 

Quais são os cuidados que tem que ter no seu trabalho?

Tenho que fazer revisão das máquinas que utilizo de forma a não haver derrames de óleos, combustíveis, pois além de prejudicar o solo pode provocar incêndios.

 

 

 

Que planos é que faz em caso de incêndio de um lote que comprou?

Quando compro um lote no Inverno, corro o risco de chegar ao Verão e esse mesmo lote se ter incendiado, então tento retirar a madeira o mais rápido possível de modo a que esta não se estrague. Mas fico a perder bastante porque a madeira verde, que serve essencialmente para paletes, tábuas, forro (tetos em madeira) é mais cara que a madeira queimada que depois de estar nesse estado, apenas dá para pasta de papel.  

 

Quais são as características de árvores que é favorável à vossa exploração?

Pinheiro Bravo – com altura superior a 10m e diâmetro superior a 12, 5cm. Que estejam em terrenos bem situados (perto de estradas que tenham fácil acesso, que seja de madeira verde e que não seja resinado.

Quanto ao eucalipto que seja bem situado e com 10cm de diâmetro.

Em relação às outras árvores tento não procurar mas se existir no lote em que compro, corto.

 

 

Quais as características negativas que vê neste tipo de negócio?

A gestão de instituições, tais como, os serviços florestais, conselhos diretivos de cada freguesia e principalmente do Ministério da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ornamento do Território, está mal feita primeiramente porque estas instituições não investem na plantação e apenas investem na exploração do que já existe. Num segundo ponto, recentemente saiu uma lei que temos que eliminar os sobrantes (galhos, rama, árvores doentes) para fazer a eliminação temos que queimar, ao queimar, queima-se a semente o que vai fazer com que deixe de existir a reflorestação natural. Também é uma indústria que necessita de várias máquinas que poluem e de combustíveis fosseis e o preço do combustível aumenta cada vez mais e as próprias máquinas são caras. É um trabalho que depende da localização do solo, se forem terrenos nivelados é mais fácil de trabalhar, depois em encostas, ravinas é mais complicado porque o acesso das máquinas não é tao fácil. Também com a doença que invadiu a floresta portuguesa em 1999, o nematodo, o preço da madeira aumentou porque quem compra a madeira tem que comprar equipamento para a tratar. Existe uma maior burocracia, pois em todas as cargas que fazemos, estas têm de ir acompanhadas por um manifesto de exploração florestal. Que identifica de onde vem, para onde vai, o período em que foi retirada e se tem sintomas da doença ou não. E essas instituições deveriam preocupar-se com este tipo de infestações que prejudicam o negócio e que eles recebem dinheiro da Europa para cuidar deste tipo de problemas e não o fazem.

 

 

É um negócio rentável neste País?

Já foi, há 15/20anos pra cá não é tao rentável porque o preço da matéria-prima nas serrações não aumenta, e em contrapartida o custo da mão-de-obra, lotes, máquinas, combustível têm aumentado.

 

Neste tipo de negócio são vistos como os “mauzões”?

Eu acho que não, porque o nosso trabalho tem que existir. Mas em contrapartida, concordo que deveriam existir mais zonas protegidas e em paralelo zonas de reflorestação para assim existir sempre um ciclo, porque se não existir daqui a uns anos podemos deixar de ter floresta.

 

Como é visto no meio onde vive?

Onde vivo é comum existirem pessoas a explorar a floresta, até pela diversidade de floresta que temos, por isso as pessoas não se incomodam com o nosso trabalho.

 

O seu negócio baseia-se essencialmente na exploração de pinheiro bravo e eucalipto, futuramente vê-se a optar por uma exploração mais equilibrada?

Não existem quantidade suficiente para retirar em grande escala outras espécies, para eu conseguir manter o meu negócio, por isso, não. O problema existente é a falta de reflorestação porque retira-se mas não se planta e daqui a uns anos vai haver escassez e vamos ser obrigados a importar e isso vai afetar grande parte do PIB do País.

 

Por outro lado, numa perspectiva mais ambiental Gil Pereira doutorado em Engenharia Ambiental mostra outro parecer em relação às explorações florestais.

 

Qual o impacto que as explorações florestais têm no ecossistema?
Tentando responder de uma forma mais simplista, diria que depende de como são realizadas essas explorações! Isto é, podem ter um impacto bastante negativo no ecossistema onde estão inseridas, especialmente nos casos em que a extração de produtos (principalmente a madeira) é bastante intensiva e nos casos em que a exploração se baseia em monoculturas (por exemplo de eucalipto, a mais comum no nosso país). Mas as explorações florestais podem também ser benéficas para o ecossistema que as rodeia, como são os casos de projectos com uma gestão florestal sustentável, onde por exemplo a exploração não se baseia em apenas um tipo de recurso florestal ou parte da área florestal é dedicada à conservação.

 

Quais são as consequências futuras?
Se o rumo continuar a ser o privilegiar a exploração dos recursos florestais de uma forma intensiva e praticamente "cega", claramente que continuaremos a caminhar para uma extinção das áreas florestais no nosso planeta, ou pelo menos para a inexistência de ecossistemas florestais saudáveis.
Mas se pelo contrário, passarmos a optar por planos de gestão florestal sustentável, conseguiremos manter e até mesmo recuperar grande parte da área florestal mundial, podendo ao mesmo tempo continuar-se a obter os diversos recursos e serviços que as florestas nos proporcionam.

 

Qual é a legislação que existe em vigor?
Existe um sem número de matéria legislativa quanto à floresta em Portugal, desde a lei de bases da política florestal nacional, passando pelo regime jurídico dos planos de ordenamento, gestão e intervenção florestal, até mesmo à estratégia nacional para as florestas, tudo isto disponível e acessível por exemplo online no portal do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, a entidade estatal que tutela também este sector. Destacaria ainda a existência de uma norma portuguesa sobre os sistemas de gestão florestal sustentável, a qual congrega uma série de orientações e requisitos, existentes também no plano internacional, no sentido de uma cada vez mais responsável gestão da exploração florestal.

 

Quais as propostas para colmatar o impacto das explorações na floresta portuguesa?
Numa opinião pessoal, parece-me que o mais premente será conter e reduzir toda a extensiva monocultura de eucalipto que transformou por completo, e para muito pior, a realidade florestal portuguesa no último meio século. Para além disso, há que diversificar claramente os recursos e serviços obtidos através da exploração florestal, deixando de se basear quase exclusivamente na obtenção de madeira e pasta de papel, alargando mais para a cortiça, frutos silvestres, silvopastorícia, entre outros. Não menos importante será ainda passarmos a considerar muito mais a sério a verdadeira conservação das áreas florestais, principalmente pelos fulcrais serviços ecológicos que desempenham para a saúde e equilíbrio de todo o planeta.

 

Links a visitar:

http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&indOcorrCod=0001149&contexto=bd&selTab=tab2

http://www.icnf.pt/portal

http://www.publico.pt/sociedade/noticia/florestas-europeias-no-centro-de-conferencia-ministerial-em-viena-1049297

http://yeenet.eu/images/stories/documets/Publications/General_Publications/Forest_Report/YEE_FOREST_REPORT.pdf

 

 

Sara Gomes

publicado por saragomes às 00:33

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