Blog de Jornalismo Especializado, Universidade Lusófona Porto

04
Jun 13

O filme retrata - Cal McAffrey -um veterano repórter de Washington, cuja profundo conhecimento das ruas, bem como a sua persistência e determinação, levam a desvendar um assassinato onde estão implicados alguns dos maiores políticos e empresários dos Estados Unidos da América (EUA).


 

O Jornalista tem simultaneamente a sorte e o azar de ter uma amizade de longa data com Collins (Congressista detido) e também uma impiedosa directora do jornal, Cameron, que o destacou para investigar o caso.
Todo o enredo remete-nos para uma leitura da Teoria Organizacional, desenvolvida por Warren Breed, bem como a questão das fontes e da objectividade de Jay Rosen.

 

Numa noite, em Washington, ocorre a perseguição e homicídio de um jovem drogado. Na manhã seguinte, o congressista Stephen Collins (Ben Affleck), responsável pela comissão de investigação às actividades de uma empresa de segurança privada em cenários de guerra, é informado do suicídio da assistente. Se, aparentemente, estes acontecimentos parecem não estar ligados, uma averiguação jornalística vai revelar indícios que aliam estas mortes a uma grande conspiração política. Num jornal dirigido por uma impaciente editora, - a investigação do caso desencadeia-se quando Cal McAffrey (Russel Crowe, um jornalista reconhecido e experiente, une forças a Della Frye (Rachel McAdams), jornalista ‘novata’ e ambiciosa, no sentido de perseguir esta história.


O fio condutor de “Ligações Perigosas” traduz-se no confronto de sensibilidades jornalísticas e estilos geracionais entre Cal e Della. A ingénua e inexperiente jornalista depara-se com rotinas e práticas jornalísticas desconhecidas, considerando algumas até incorrectas e ilegais. Por outro lado, Cal desconfia das capacidades jornalísticas de Della, mas sobretudo dos novos meios digitais que ela domina. A frase “tem garra, é barata e produz textos de hora em hora”, dita pela editora do jornal sobre Della, resume a inaptidão de Cal face às necessidades de um novo contexto de organização das empresas jornalísticas.

 

A redacção é aqui um lugar de gestão de forças, baseada em relações, por vezes conflituais, entre os jornalistas, os jornalistas e os editores e a redacção e a organização económica do jornal. Havendo, assim, um debate constante sobre as pressões exteriores, a ética e a moral do jornalismo.


A teoria organizacional desenvolvida por Warren Breed,ao contrário da teoria da acção pessoal ou gatekeeping, privilegia, não uma perspectiva individual da concepção do trabalho jornalístico, mas uma visão colectiva, enraizada na organização em que o jornalista está inserido. Nos estudos que contribuíram para o desenvolvimento desta teoria, Breed observou que “o jornalista se conforma mais com as normas da política editorial da organização do que com quaisquer crenças pessoais”. O jornalista insere-se na organização e está condicionado pelas directrizes que emanam da hierarquia instituída. O peso da teoria organizacional está, afirma Traquina, num “processo de socialização organizacional em que é sublinhada a importância de uma cultura organizacional, e não de uma cultura profissional”.

 

 

 


Breed reconhece seis factores que fomentam a conformidade do jornalista para com a política editorial adoptada pela organização:


1. A autoridade institucional e as sanções – o facto de os jornalistas poderem ser sancionadas pela instituição à qual estão vinculados. Breed identifica algumas dessas sanções: a atribuição de tarefas com as quais o jornalista não consente ou não está interessado em desempenhar; as alterações às peças; a assinatura ou não do jornalista.


2. Os sentimentos de obrigação e de estima para com os superiores – o jornalista, diz Breed, pode, com o tempo, desenvolver laços de amizade com os superiores hierárquicos da instituição. Pode, efectivamente, respeitá-los e admirá-los. Mas pode também manifestar um sentimento de obrigação para com a empresa.


3. As aspirações de mobilidade – são poucos os jornalistas que têm a audácia de “lutar contra a orientação da política editorial do jornal”, pois isso constitui um entrave às aspirações dos jornalistas, que pretendem alcançar uma “posição de relevo”.


4. A ausência de grupos de lealdade em conflito – o local de trabalho dos jornalistas é relativamente tranquilo.


5. O prazer da actividade – os jornalistas “gostam do seu trabalho”. Consideram interessantes as tarefas que desempenham e aprazem-se com o ambiente de cooperação que se gera nas redacções.


6. As notícias como valor – os jornalistas e a direcção têm um interesse em comum: a produção de notícias. O jornalista não contesta a política editorial porque ambas as entidades, os profissionais e os administradores, têm em mente o mesmo objectivo.

 

 

Outros factores são apontados por Breed na tentativa de ajudar os jornalistas a libertarem-se das imposições organizacionais:

 


1. as normas da política editorial nem sempre são totalmente claras ou bem estruturadas.


2. o jornalista, que conhece os códigos profissionais, tem a liberdade de construir a realidade noticiosa.


3. quando a organização decide não publicar a história de um jornalista, este tem a possibilidade de a divulgar junto de um outro editor, num outro órgão de comunicação.


4. o jornalista goza de autonomia para trabalhar numa determinada estória.


5. Os jornalistas com estatuto de “estrela” conseguem mais facilmente contornar as políticas editoriais.


O jornalista profissional Cal aproxima-se da conotação de “estrela”, o que lhe proporciona alguma liberdade de algumas imposições por parte da editora. Caracterizado pela forte personalidade, persistência e determinação, esta personagem consegue de facto descobrir a verdade num meio tão perigoso e delicado como o político. Sem saber, e depois a saber, é o protagonista da descoberta de uma fraude que envolve dois amigos seus. Neste momento, o seu caracter objectivo teve que ser demarcadamente separado e posto acima das suas emoções, juízos de valor e pensamentos. Concluiu o objetivo pelo qual a sua actividade se rege.

 


Os valores-notícia fazem parte da inerência profissional do jornalista. São os critérios que atribuem valor social a um acontecimento jornalístico
 A propósito, Nelson Traquina enuncia: “...os jornalistas têm óculos particulares – são os seus valores-notícia, que, nas palavras de Bourdieu, ‘operam uma selecção e uma construção daquilo que é seleccionado’”. Galtung e Ruge (1965) foram os primeiros autores a identificar de forma sistemática os valores-notícia.

 

Os autores respondem à pergunta “como se tornam notícia os acontecimentos” elencando nove valores-notícia: 1) o momento do acontecimento – um acontecimento de última hora é susceptível de ser noticiado; 2) intensidade – quanto mais intenso for o acontecimento maior probabilidade tem de ser noticiado; 3) clareza – assuntos evidentes, sem ambiguidade; 4) proximidade – quanto mais próximo for o acontecimento, geográfica e sentimentalmente, maior probabilidade terá de ser noticiado; 5) consonância – temas que estão em conformidade com as normas vigentes na organização; 6) surpresa – acontecimentos inesperados; 7) continuidade – a notícia já publicada transforma-se num continuum narrativo; 8) composição – manter um equilíbrio ao nível da diversidade dos assuntos abordados pela notícia; 9) sociocultural – ordenam a compreensão da realidade social e cultural.


O filme de Kevin Macdonald espelha facetas novas, como o ciberjornalismo e a concentração, responsáveis por uma transformação no exercício esta profissão.


O jornalista do futuro será uma espécie de McGyver. Homem dos mil e um recursos, trabalha sozinho, equipado com uma câmara de vídeo digital, telefone satélite, laptopcom software de edição de vídeo e html, e ligação sem fios à Internet. One man show, será capaz de produzir e editar notícias para vários média: a televisão, um jornal impresso, o site da empresa na Internet, e ainda áudio para a estação de rádio do grupo. Esta é pelo menos a visão dos entusiastas da convergência, o super eficiente jornalista multimédia que revoluciona a produção e transmissão de notícias do futuro, e de que já haverá alguns exemplares no mercado”. (Gradim, 2003).


"Para além do domínio de paradigmas jornalísticos tradicionais –como a redação de texto, a estruturação da informação, o desenvolvimento das capacidades de seleção e de síntese –a familiarização dos estudantes com as novas tecnologias, em particular com a Internet, é vista como prioritária, já que «o jornalista da próxima década será um jornalista multimédia. (...) Será uma espécie de homem orquestra, capaz de utilizar imagens de vídeo na edição em linha do seu jornal ou de transmitir mensagens escritas através da sua emissora de rádio. A única especialidade possível no jornalismo do futuro será a de saber trabalhar em todos os meios e com todos os meios». Paralelamente, a convergência empresarial de media convencionais e a necessidade de aproveitar as sinergias mútuas e embaratecer os custos de produção potenciaram a figurado jornalista multimédia (Nocie Aliaga, 2003).


“(…) a Web permite perspectivar um jornalismo em que, de certo modo, se esbate e se anula mesmo a distinção entre jornalista e leitor, entre produtor e receptor da informação. Neste novo contexto, o jornalista é visto essencialmente como um “mediador”, um “facilitador de discussões”, um “animador” e um “organizador” da recolha da informação e da sua utilização pela comunidade”. (Serra, 2003)

 

Esta visão espelha bem o poder que o utilizador tem online e a necessidade de o ciberjornalista fazer bem mais do que construir uma notícia tradicional.


Os novos média colocam no seu centro o utilizador, cujas capacidades de interpretação são determinantes no uso e no design dos novos média. As novas tecnologias digitais dão uma enorme ênfase às respostas dos seus utilizadores, concedendo-lhes um lugar central na produção dos seus conteúdos. Simultaneamente, o meio incita cada vez mais o ciberjornalista (e também o utilizador, que há muito passou a ser igualmente produtor e não apenas recetor de informação) a produzir mais por via do desenvolvimento de ferramentas e tecnologias que permitem e facilitam essa tarefa.
De igual forma o filme dá-nos a ver fenómenos clássicos do jornalismo, como o contacto com as fontes e as relações de desconfiança entre profissionais, mas também de solidariedade e corporativismo.
As fontes ou os “promotores” são a base da construção de uma notícia. No filme assiste-se a fontes oficiais, fontes anónimas, e pistas. Perante todo o cenário, e por se tratar de um caso real, o objetivo é descobrir a verdade, sem recorrer a interpretações ou opiniões.
“Sónia Baker morre num acidente de metro” – foco inicial, primeira informação. Primeira pergunta que qualquer jornalista deve fazer: “O acontecimento constitui ou não valor-noticia?”


É uma história de interesse humano, provoca emoção em directo – “relações pessoais na esfera política” – suscita algo insólito, alguma surpresa.

O acontecimento pressupôs uma investigação jornalística – um seguimento de pistas- conseguida pelo trabalho em equipa. A empresa “Point Corp” foi investigada, as fontes foram consultadas e fontes anónimas contactaram.


A fonte policial afirma de imediato “confirmo, mas nego se for preciso”, o que não constituiu qualquer ajuda, há também fontes anónimas mas devido à sua própria essência pouco convincentes.
A questão das fontes– por fonte entende-se qualquer entidade detentora de dados que seja susceptível de gerar uma notícia- é sempre complexa.


A veracidade da fonte pode não ser uma exacta e fiel reprodução do acontecimento, por outro lado, a sua publicação pode por vezes ser proibida se o interveniente assim o exigir.


Jay Rosen dá dois exemplos de rotinas jornalísticas: a “confiança nas fontes oficiais” e o “equilíbrio”, nomeadamente através, por exemplo, da citação de “ambos os lados numa querela política”. Aliás, Rosen afirma mesmo que a “forma mais fácil de produzir a impressão de equilíbrio é recolher essas duas posições extremas e expô-las em conjunto”.
Ser objetivo no meio de tantos factores de subjectividade como espectativas, experiências e até juízos de valor torna-se, como diz Jay Rosen, um mito “perigoso e deformador”.

 

Também Walter Lippman afirma “a objectividade encontra-se entre a ilusão e a sacralidade dos factos”, o jornalista move-se num mundo mais associado à opinião do que ao facto. Esforça-se por construir uma realidade, por interpretá-la e dar-lhe um siginificado. É um sujeito activo que procura relatar os factos com “exactidão e honestidade”, através do discernimento e confrontação das fontes.
Sobretudo, retrata o processo que leva à legitimação de um jornalista jovem. A última cena do filme é representativa disso: Cal sai da redacção, mas ao contrário da cena inicial, desta vez não vai sozinho. Della corre ao seu encontro e acompanha-o na saída. O passado e o presente, do jornalismo, juntos.


Conclusão


 

Ao longo do filme verificámos um jornalista a tentar descobrir factos ocultos, denunciar pessoas ou práticas, “trazer a verdade ao de cima”, sem publicar especulações ou opiniões.
No início do filme é feita uma critica ao jornalismo digital – é dado aqui destaque a alguns jornais que já se adaptaram á realidade das tecnologias.

A questão do poder dos média, e a constituição deste como o “quarto poder” está de facto implícita. Os órgãos de comunicação social muitas vezes sobrepõem-se ao poder politico.
O filme Ligações Perigosas é a reprodução fiel dessa mesma sobreposição.

 

Por fim, e não menos importante, a problemática da relação existente entre jornalista e as fontes. As fontes implicam interacções complexas, suscitam por vezes problemas de caracter ético do qual o Jornalista às vezes não faz ideia.

 

Ficou bem patente que existem fontes “interesseiras” e fontes “interessadas”, umas “correm atrás” do jornalista, as outras é o jornalista que tem de correr.

 

Vasco Ribeiro explica “as fontes nunca são desinteressadas”, devemos chamar-lhes “fontes sofisticadas de informação.

 

 

 

Maria Girão Sá

 


 

publicado por Maria Girão Sá às 21:17

Parabéns pelo texto.
Vasco a 5 de Junho de 2014 às 02:08

ernesto1v1f.wordpress.com
Anónimo a 14 de Julho de 2014 às 20:29

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