Blog de Jornalismo Especializado, Universidade Lusófona Porto

16
Abr 13

O que é o jornalismo como contrapoder? Numa Columbia Broadcast Station (CBS) de 1953, Edward Murrow, jornalista e apresentador do programa cívico See it Now, protagoniza uma acesa guerra ideológica com o senador Joseph McCarthy, no qual denuncia os vícios de uma política americana demagógica. Em cima da mesa está o McCarthynismo, uma cruzada para apanhar os comunistas em organizações e instituições americanas, que julgava os acusados em asta pública sem apresentação de provas. Surge o tilintar da campainha do “stop” na cabeça de Murrow, que protagoniza um dos melhores trabalhos jornalísticos pré-Watergate do século. O filme é preto e branco para enquadramento na época, mas não o podemos também ligar ao facto de um cão ser daltónico? Falo claro, do cão de guarda jornalístico.

 

O See it Now, a arma do quarto-poder e a forma ideal com que Edward Murrow e Fred Friendly viram para denunciar os abusos do político numa época de Alerta Vermelho. Murrow interpretou que foi oportunidade para McCarthy fazer campanha política numa caça aos gambuzinos comunistas. O jornalista via o senador como o demagogo que estava a alimentar o monstro do medo. O verdadeiro tiro no próprio pé do senador deu-se quando este falou em público e exerceu a mesma estratégia acusatória em Murrow. A imprensa idolatrava Ed Murrow, o McCarthy foi destituído (mas não afastado da política), tudo bons agoiros. Mas não era bem assim.

 

O programa ficou sem patrocínios, já que a caçada jornalística incutiu o pânico noutros. O chefe executivo da CBS, William Paley, disse a Murrow e Friendly que não aguentava mais “murros no estômago”, pois só conseguia ver o See it Now como uma caça política nociva para o canal. E para os cofres da CBS. O cão de guarda que é o jornalismo estava a ser ameaçado com uma trela da própria cadeia televisiva yellow (cobarde, como Murrow chamou a Friendly na brincadeira).

 

O programa de Murrow e Friendly passou do horário nobre da terça à noite para o não tão nobre domingo de tarde. O contrapoder foi triunfante na defesa da justiça, mas injustiça acabou por levar o castigo ao programa por um bom trabalho. Tal como Murrow diz no início do filme, “se as gerações futuras analisarem os trabalhos jornalísticos feitos na nossa época, verão o quanto decadente era o nosso trabalho”.  

 

Provavelmente o que todos os jornalistas sentem neste momento: enfrentar a ditadura da publicidade e a tradicional pressão política. Houve uma grande evolução nos últimos anos, a nível dos equipamentos, técnicas e bons trabalhos jornalísticos mas os mesmos problemas de há 60 anos mantém-se. Será que a nossa salva está nos fundamentos de um Ed Murrow cada vez mais ausente? Como estudante de jornalismo, acredito religiosamente que sim.

 

Boa noite. E boa sorte.

 

Por:
João Mota 

publicado por jonasmota às 23:25

É sempre um desafio conseguir saber a verdadeira intenção de uma imagem acompanhada de um texto ditada por um profissional. Não é um de nós, comuns, a ler algo que conhecemos e detemos como verdadeiro. É alguém que já investigou o assunto e que talvez já formou uma opinião camuflada do mesmo. Que intenção terá este ao passá-la para o aparelho que soa em várias divisões? É visível, que no dia seguinte, o espectador manifesta-se, às vezes não espera as 24 horas para ir para um transporte e entrar na personagem “comentador” com o passageiro do lado. O impacto também passa pelas refeições, quando pousamos o garfo para prestar atenção a algo que nos desperta os sentidos. Aí alimentamos a notícia e esperamos que esta desapareça até que surja outra não tão viral. Como se fosse a pirâmide alimentar da primária, do mais importante para o menos. Semelhante ao alinhamento do jornal; à escolha das fontes; à estrutura de poder numa redação. Um dia, na América dos anos 50, um grupo de jornalistas inverteu esta estrutura. A CBS mudava o sentido que sempre dera à televisão. Um pivô passou para o “lado de cá” duas versões diferentes de um caso sufocado de tão encoberto. Por merecer a verdade, a sociedade foi alertada através do relato de crimes contra comunistas que afinal também são “comentadores”. A palavra de um Senador contra o senhor com o cigarro que queima em direto. Esta última figura, segura de si, não teme o preocupado o diretor executivo, a falta de patrocínios e o primeiro poder democrático. Teme sim a intenção dos media. De seu nome Edward Roscoe Murrow, “Ed” na redação, opôs-se pelos direitos civis e consigo levou um grupo de amigos imparciais cuja paixão aliada ao nervosismo evidenciava-se quando estavam “no ar”. Queriam ser os primeiros a desvendar que o meio não só enche os lares de anúncios mas pode também viver da contagiosa informação. Sem tomar partidos, esperaram por críticas até o bar quase fechar. A reação dos espectadores disparou o prazer do trabalho mas a sombra amarga da publicidade fez com que o programa mais tarde terminasse. Contudo, aquele momento em que público presenteou uma investigação ao Senador e o fim de denúncias inusitadas, tornou o dever cumprido. Esta comunidade jornalística, dona de um dialeto próprio em circuito fechado, marcou um período.

Assim, as opiniões acomodam-se em prol do jornal das 20 horas apresentado por um estranho com tamanha postura que nos parece credível.

Afinal o que é a televisão? Um espetáculo de luzes, cores vibrantes e falas persuasivas numa decadência rotineira? Ou, como diria “Ed” em 1958, a televisão pode também ensinar, elucidar e inspirar, desde que os humanos a usem para esse fim?

Toda a exaltação da importância das ideias e da informação continua a jogar com as nossas mentes com o intuito de ganhar e termina quando se ouve um “Boa noite, e boa sorte”.

Filipa Alves

 

Crónica do filme “Good Night, and Good Luck”

publicado por jornalismofilipaalves às 22:45

Abril 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10

15
19
20

22
23
24
25
26
27

28
29
30


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
pesquisar
 
blogs SAPO